terça-feira, 23 de julho de 2013

NA ROTA DO TURISMO: DO OUTRO LADO DA ILHA

Texto: Moisés Sarraf

Fotos: Oswaldo Forte

A cerca de 70 quilômetros de Belém, a paradisíaca Mosqueiro abriga cenários ainda pouco conhecidos da grande parte dos visitantes, que conhecem mais o lado agitado e festeiro do balneário-distrito da capital paraense.

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Circundado por extensas paredes de mato e água, percorremos os primeiros metros do que bem mais à frente se torna o imponente oceano Atlântico, quando o sol já atravessava um quarto do seu percurso. Com as faces contra um espetacular vento, adentramos igarapés, rios e uma baía, conhecendo uma diversidade de espécies -- animais e vegetais – que jamais havíamos visto.

Cinco minutos depois, cortando as curvas, adentramos a “Boca do Pratiquara”, confluência com a baía de Santo Antônio e o rio Murubira. No total, navegamos por 1h15, observando a imensa ilha, junto de diversas ilhotas, desconhecida, apesar de ser o destino certo dos moradores das cercanias, geralmente no período seco da região. Tudo é novo. Bem que parece a crônica de um espantado visitante que percorrera a Amazônia em séculos passados. Essa, porém, é uma outra paisagem da ilha de Mosqueiro, um dos distritos de Belém. Longe das praias agitadas pela multidão, ainda há muito o que se conhecer no lugar.

A Bucólica. Há muito tempo esse apelido se perdera na urbanização da ilha encravada no estuário amazônico, onde o rio vira mar e o mar vira um “riozão”. Isso porque a maioria dos visitantes conhece apenas o litoral, o lado que fica de frente para a praia, o que desenvolveu o turismo a partir desses balneários, como as badaladas praias do Murubira, Chapéu Virado e Marahu. Nossa equipe chegou ao porto do Pelé, no subúrbio de Mosqueiro, por volta das 7h45 de um domingo de sol ameno. Um agitado trapiche, às margens do igarapé Tamanduaquara, por onde passavam pessoas em busca de folga, estivadores esperando mercadorias e gente – muita gente – desde cedo, a jogar uma partida de bilhar nos bares erguidos sobre as pontes. É de lá que partem embarcações para diversas comunidades da chamada região das ilhas de Mosqueiro.

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“Ah, chegaram!”, exclamou a turismóloga Gildelisa Cézar, a Gilda, nossa guia, ao lado de um grupo de mais de dez pessoas. Nosso passeio tinha destino certo: as trilhas abertas entre comunidade ribeirinhas das ilhotas do distrito, uma área pouco ou quase nada sob a influência do homem. Só nessa área, são sete comunidades. Nossa primeira meta era alcançar a comunidade Castanhal do Mari-Mari, nome de uma frutinha comum no interior do Estado. Estávamos a caminho da trilha Olhos d’Água, que termina na comunidade de Caruaru, onde residem 60 famílias, com cerca de 300 moradores. Por lá, os habitantes vivem da agricultura familiar, em regimes agroflorestais, típicos de comunidades tradicionais, além da pesca artesanal. Na roça, mandioca plantada e uma intensa produção de farinha.

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A trilha Olhos d’Água, digamos, é antiga. Surgiu em 1987 por uma necessidade básica daqueles moradores: um caminho que interligasse as duas comunidades, a do Mari-Mari e a do Caruaru. Enquanto cruzávamos os pequenos rios a bordo do barco-motor Guerreira das Águas, Gilda dizia – quase gritava, para superar o som do popopô – que “a prefeitura incentivou o turismo de base comunitária na área, sinalizando os pontos do caminho, orientando moradores”, há cerca de uma década. Os visitantes começaram a se interessar pela conhecida modalidade de trekking – você coloca a mochila nas costas e o pé na estrada. Era só organizar um grupo de aventureiros e partir para a trilha. Com o tempo, sem tantos visitantes, a mata foi fechando o caminho.

Helena Silva, de 43 anos, conhece bem o caminho há dois anos. Ela participou de um projeto para capacitação de guias através da Fundação Escola Bosque, a partir do qual diagnosticou o que há de melhor naquele caminho e, principalmente, sabe muito bem como apreciar sem devastar. Sua função primordial é essa: mostrar a trilha, apreciar as belezas, mas não deixar lixo nem levar nada do lugar. “A caminhada é muito boa, tem uma planta linda naquele lugar”, disse a guia. Todas, a toda hora, falavam sobre uma espetacular espécie de samambaia azul, que superaria a beleza de bromélias e orquídeas. Uma espécie que muitos comentam por Mosqueiro com desdém, como se fosse uma “conversa de caçador”. Os bandos de macacos-de-cheiro também são conhecidos do passeio, mas não fomos agraciados com a curiosidade dos bichos.

Selma Monteiro, outra monitora, lamentava, ainda na embarcação, o desconhecimento dessa área, “porque as pessoas só vão às praias de Mosqueiro” nos dias de julho, dezembro e feriados.

À medida que avançávamos, os lugares pareciam ainda menos com as conhecidas paisagens da, agora sim, Bucólica. Nenhum ser humano à vista. “Aqui, bem perto de Belém, temos um ambiente rústico, uma área pouco tocada pelo homem”, disse Gilda. Atravessamos águas barrentas de áreas pouco exploradas e, ao fundo, somente o rio Pará se alargando até formar o imenso delta que deságua no Atlântico. No local, são fortes as marcas do estuário. A vegetação característica do mangue, com raízes altas, bifurcadas, tomadas por flores brotando, ainda minúsculas nos troncos; a lama preta, com toda a variedade de crustáceos e moluscos, principalmente os pequeninos sararás; e, à frente, somente o verde emoldurando o límpido céu da ilha, com os amarelos, os vermelhos e os verdes concedidos por tucanos e araras. Tudo junto, no solo, dos milhões de antrópodes, platelmintos e anelídeos, além de fungos, bactérias e protozoários responsáveis pelos ciclos de vida. À medida que adentramos a ilha, na região meridional, baixa a salinidade das águas e começa a várzea. Fosse como fosse, a viagem já valera a pena.

Depois de 1h30, chegamos ao porto do Canavial. Lá, começava uma charmosa ponte de madeira de uns 500 metros, passando por cima de braços de igarapé, até chegar em terra. Tomamos o barco, atravessamos o rio, caminhamos sobre a ponte e pisamos em solo firme.

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Há um bom espaço para caminhada na trilha, mas as árvores se fecham em arco, ao alto, transformando o lugar em um corredor coberto, praticamente livre do sol, cujos raios se espalham em alguns pontos. O clima é agradável, quase frio. Passamos pelo primeiro sítio, uma casa de farinha à espera de mandioca. Mais à frente, em uma espécie de praça da comunidade do Mari-Mari, lugar de comunhão, havia um campo de futebol e também espaço para devoção. Santa Maria do Castanhal do Mari-Mari é o título da imagem de Nossa Senhora da Conceição. Em fins de maio, acontecia a festividade da santa, ao redor de uma aconchegante capelinha, com cinco fileiras de bancos. Em frente à igreja, um imenso arranjo de flores amazônicas, confeccionado pelos moradores. “Hoje ainda é o segundo dia. Todo dia tem novena ao final da tarde”, contou Vera Lúcia Fróes, 52 anos, que cuida da limpeza da capela.

DESCOBERTAS

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Seguindo a trilha, a cada residência, um aceno da janela. No meio do caminho, como nos alertou Gilda, o “carro-chefe” do local, o tal vegetal famoso, conhecido, propalado: a samambaia azul. É realmente impressionante. Primeiro apenas alguns exemplares e, então, centenas de samambaias com as folhas brilhando em azul, quase roxo. Um espetáculo só não maior que a disciplina de uma tropa que cruzou, interminável, nosso caminho. Eram cinco “faixas” de formigas atravessando a trilha, em milhares – quem sabe milhões – de taocas, que saíam de um tronco de árvores transmutado em ninho. Lá pelo meio do caminho, quase 2,5 quilômetros de caminhada, pudemos nos refrescar. Pegamos um desvio, levando a outra trilha que desemboca no igarapé da Casa Grande, berço do rio Mari-Mari, onde se amontoavam dezenas de matapis e rabetas.

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Retornando ao nosso caminho, seguimos em linha reta. Com a mata ainda mais fechada, restando apenas o espaço para duas pessoas emparelhadas, ninguém sentiu o cansaço. O que dá nome à trilha aparece apenas quando a aventura está próxima do fim. Por estarmos no término do chamado inverno amazônico, quase perdemos a atração, que, por sorte, ainda estava lá. O olho d’água cruzava a trilha – ou a trilha o cruzava – com a fonte gelada, quase transparente, brotando das pedras, da terra. “Já tem só um restinho do olho d’água. No verão, ele some e só volta com as chuvas do final do ano”, disse Gilda. Depois de experimentar a água, já podíamos encerrar a visita. Alguns tronos pelo caminho – como se derrubados propositalmente para caracterizar a trilha – e, então, um novo clarão na mata, a comunidade do Caruaru, com seu campo de futebol, sua capela e dezenas de casas circundando a “praça”.

Igarapé, praia e bem-estar

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Outras opções se apresentam ao visitante que quiser fugir do passeio badalado em Mosqueiro. Ao terminarmos nossa trilha, na comunidade do Caruaru, tomamos uma embarcação novamente. Desta vez, fomos ao sítio Pratiquara, cujo proprietário Nonato Marques também organiza trilhas. Das margens da baía de Santo Antônio partem duas trilhas, uma com um quilômetro e outra com um quilômetro e meio. “A pessoa me liga, eu agendo tudo”, adianta o proprietário.

Com poucos visitantes, a tranquilidade ecoa no silêncio do lugar. No cardápio, o mais fresco dos peixes de Mosqueiro, se gaba Nonato, mostrando a todos as suculentas postas de filhote e dourada prestes a irem para a panela. Construído sobre um trapiche, como uma palafita, o restaurante possui dezenas de objetos feitos em artesanato com madeira e cipó, e uma atração maior ainda: um píer que flutua sobre centenas de garrafa pet. “Eu fui coletando, pedindo doações. Não demorou ficou pronto” contou Nonato, apontando para onde estavam alguns clientes observando o rio.

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Antes do portal de entrada de Mosqueiro, na rodovia PA-391, há também opções para famílias e amigos em busca de trekking ou de moutain bike.

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No lado direito da via, sentido Belém-Mosqueiro, procure a placa “Balneário Belezinha”. O igarapé vem da cabeceira do rio Mari-Mari, conta o dono, Evandro dos Santos, 32 anos, O Belezinha segue até hoje os preceitos para os quais foi criado, só que em escala maior. A área foi comprada em 1992, por Floriano dos Santos para ser um refúgio familiar, lugar de sossego para fins de semana e dias de folga. Já em 1995, uma obra ampliou as dimensões, formando uma piscina natural. Aí as visitas cresceram. “Sempre tinha um amigo da família pedindo para vir aqui, a gente sempre deixava”, contou Evandro dos Santos, filho de Floriano. Só que “amigo invoca amigo”; o negócio cresceu. No balneário, há variadas opções. Através do campinho de futebol, começam duas trilhas. A primeira é para o trekking, a segunda, para o moutain bike. Com uma hora de duração, a caminhada na trilha tem pontos de descanso e faz um semicírculo pela mata, até chegar à barragem que forma a piscina natural. Já de bicicleta o percurso é maior, totalizando 2h30. E tem mais: quiosques, sombras e água geladíssima.

Mosqueiro é imenso formigueiro humano durante os meses de férias escolares, principalmente aos finais de semana. Basta olhar do alto. São milhares de pessoas sob barracas, disputando a areia. Ainda assim, esse setor pode ser de tranquilidade, sem carros-som, sem muita gente.

A praia da baía do Sol esconde belezas pouco vistas devido a distância. Os banhistas preferem as mais procuradas, como Murubira, Chapéu Virado, Farol, Ariramba e outras. Na tarde de nossa visita, apenas uma família se banhava sob o pôr-do-sol amazônico, por volta das 16h, com o horizonte infinito à frente. Só na volta entendemos o nome da baía. Um sol manso dourava as águas, o vento forte, incessante no ar e, então, a dimensão da vida ribeirinha toma conta de qualquer visitante.

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“Sempre venho aqui trazer o bebê”, disse a dona de casa Joanes Lira, 28, com o cabelo ao vento, segurando o carrinho do filho de três meses. Ao deixar a praia, pegando a estrada de volta para Belém, só restou uma dúvida cruel, crudelíssima, por que não ficamos para ver o que a noite tem a oferecer?

FONTE: Sarraf, Moisés. Do outro lado da ilha. “AMAZÔNIA VIVA”. Ed. ORM – O LIBERAL- VALE. Belém/PA. Julho 2013. Edição nº. 23. Ano 2. pp. 30,31,32,33,34,35,36,37,38 e 39. ISSN 2237-2962.

IMAGENS: cópias das fotos da revista

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