quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

JANELAS DO TEMPO: AS VIAGENS NO ALEXANDRINO

Autor: Augusto Meira Filho

Já falamos nesse fabuloso barco, no texto deste trabalho. Mas o seu lado pitoresco e popular ficou para esta tentativa de retratar seu funcionamento durante dezenas de anos, na linha Belém-Mosqueiro. Ao que se sabe, o 1º barco a vapor que fez a linha de Belém à Ilha do Mosqueiro foi o “Gaivota” da Companhia do Amazonas, também proprietária do “Tucunaré” que nesse tempo fazia a ligação Belém-Pinheiro. Depois uma empresa de alemães, nos idos de 1915, colocou dois navios: “Mosqueiro” e “Soure” para a comunicação fluvial entre a capital e o Mosqueiro. No correr da grande guerra, esses estrangeiros retornaram à Europa, deixando sua firma em mãos de brasileiros que a incorporaram (aos seus bens pessoais) passando a dirigi-la sem qualquer interferência de seus verdadeiros proprietários. São fatos dos idos da primeira guerra mundial e que os jornais de Belém registraram. Mais tarde, o Sr. Alberto Engelhard também teve um vapor de sua firma, servindo na linha do Mosqueiro. Denominava-se “Valparaíso” e dele foi despenseiro o conhecido pintor paraense e violoncelista da sinfônica do Belarmino Costa, o artista Andrelino Cotta.

Passada essa fase, o Serviço de Navegação do Estado chamou às suas atividades o transporte de passageiros e cargas, de Belém até àquele balneário.

Com a instalação da Port of Pará, companhia concessionária da construção do nosso porto, o navio “Almirante Alexandrino”, que já servia ao Mosqueiro, foi entregue àquela nova empresa e daí começa a sua via-crucis que duraria quase meio século.

Ainda muito jovem viajamos no “Alexandrino”, ao tempo em que a passagem de 1ª classe era 1.500 réis e a 2ª 600 réis. Aos domingos, duas viagens de ida e volta Belém-Mosqueiro. Pouco ou nada existia na ilha de interesse além do Murubira e um começo do Ariramba. A vida do Mosqueiro se circunscrevia à Vila e ao Chapéu-Virado. A partir da primeira década do século, o ferro-Carril, instalado da Vila àquelas praias, atraía maior número de visitantes e de veranistas à velha e tradicional região do Chapéu-Virado. Conhecemos e percorremos toda essa distância, pela animada frequência dos bondinhos, sobre os quais já comentamos. De início, o Vapor Almirante Alexandrino tocava 5 minutos em Pinheiro (Icoaraci), o mesmo fazendo no regresso da Ilha a Belém. Foi sempre tradicional a viagem aos sábados, às 2 horas da tarde. À hora certa, invariavelmente, o barco dava seu “último apito” que, na opinião do professor Cécil Meira, era um palavrão que soltava de despedida do calor e do rebuliço da cidade. Logo o vento gostoso da Guajará tomava conta do navio e todos respiravam felizes, embora, apinhados pelas cadeiras, corredores e passadiços que acumulavam gente de ponta a ponta, sempre andando à procura de nada. E lá se ia o barquinho cheio de passageiros, adultos, crianças, moços e velhos, na mesma sinfonia de ansiedade para a chegada à Vila do Mosqueiro. Os companheiros de bordo conheciam os segredos de todo o mundo e a viagem, com o correr dos tempos, passaria a ser objeto de copa e cozinha da vida do belenense. A palavra “Mosqueiro” sempre foi sinônimo de libertação, de paz, de lazer, de felicidade. Dizia-se comumente:

-- Mosqueiro – Delícia das crianças, paraíso das mulheres, inferno dos homens! Visto sob certos aspectos, aquele nosso tão falado e querido balneário, muitas vezes, se revelava, para nós, um verdadeiro sofrimento. Podemos dar testemunho pessoal, quando, certa vez, fizemos 20 dias de viagens diárias em dezembro e 30 em janeiro, completando 50 dias ou 100 viagens Belém-Mosqueiro, seguidas. Às 5 da tarde já a bordo para descer; às 4 da manhã, despertado à porta da rua, esperando o ônibus – que vinha trôpego pelas estradas, trazendo em seu bojo o dobro da lotação. Perdido aquele transporte, só a pé se poderia alcançar o barco na Vila e isso o fizemos muitas vezes, nas madrugadas de luar e de inverno rigoroso. Chegamos a fixar mais de vinte posições sentadas no percurso de duas horas, tempo gasto em cada linha, e ainda na dependência das marés.

Um dia – nesse tempo de cinquenta dias de viagens seguidas – foi que o Comandante à última viagem, nos chamou junto a seus comandados e falou gravemente:

-- “Meus colegas, nosso amigo completa hoje 50 dias neste barco. Isso é uma façanha que precisa ser registrada por nós. A partir de hoje, nosso passageiro será considerado “Piloto Honorário” do navio Alexandrino. Fazer essas viagens por obrigação, como o fazemos nós, marítimos e servidores da empresa para a qual trabalhamos, não é nenhum sacrifício. Mas, fazê-lo por devoção à família e ao Mosqueiro, é qualquer coisa de admirável. Parabéns, pois, e saiba que agora será nosso piloto honorário.” Não sabemos se merecido ou não esse prêmio.

A verdade é que, aos fins-de-semana, obter um lugar seguro no navio do Mosqueiro era uma vitória excepcional. Obter lugar, mesmo em pé, outra esperança. E receber convite do comandante para “subir ao seu Camarote”, seria a maior dádiva para quem já se propunha ir mesmo no balcão do café ou pendurado em qualquer parte do porão, entre foguistas, lenha, carga, animais, lixo e calor. A sede torturava a garganta e uma cervejinha bem gelada seria uma delícia. Mas como chegar ao Bar do Marçal? E pedir à dona Lícia nos servisse logo? Uma loucura sair do lugar, para um drinque qualquer, um refrigerante para as crianças ou um sanduíche para a mulher. Dada a partida do Galpão, cada um se ajeitava, nas cadeiras, no chão, nas bagagens, no porão imundo. Foi depois de uma temporada dessa feição que compusemos o seguinte soneto:

                                       “Velho Alexandrino”

Quatro e meia. O sol é ardente, o galpão cheio

De gente confusa em louco borborinho

Bagagens soltas, crianças de permeio

Como pássaros em fuga de assanhado ninho!

Caras que vão e vêm, ano após ano...

Do mais alto verão ao pleno inverno

Cabelos que encanecem no dever insano

De na vida sofrer e inda viver no inferno!

 

No velho pavilhão, onde o mormaço

A alegria transforma em mísero cansaço

O santo coração de um povo peregrino...

No barco... um turbilhão de corpos oprimidos

Qual sinistra galera, onde os gemidos

Cantam da morte o derradeiro hino...!

 

O verso procura retratar a paisagem do navio do Mosqueiro em dia de viagem, no começo das férias de julho, por exemplo. Aos sábados e domingos, a coisa era bem pior, era dantesca, sobretudo, na volta para Belém, àquela hora da tarde quando o navio apitava no trapiche, com gente ainda correndo pela ponte à espera de um canto qualquer e chegar a Belém, em paz. Que drama! Que lembrança! Que recordação!

Contudo chegava-se em casa. Um banho, uma rede, um ar tranqüilo de praia e logo todos os sofrimentos desapareciam por encanto e já se ficava cuidando da volta. Foi assim que educamos e criamos uma prole numerosa, edificamos nosso Diamante e ali mesmo iniciamos a luta pela rodovia e pela ponte. Quem se fez mosqueirense nessa época nada temeria para o futuro. Tudo viria para melhor!”

 

(MEIRA FILHO, Augusto. “Mosqueiro Ilhas e Vilas”- ED. GRAFISA, 1978- pp. 358, 361, 362, 363 e 364) clip_image001

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

CANTANDO A ILHA: MOSQUEIRO

MOSQUEIRO

Autora: Erica Jaqueline

Mosqueiro, que belas praias e paisagens

Quantas belezas te deu a natureza

Cheiro gostoso, marés ondulosas

Quão bonito o azul de teu céu estrelado

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FOTO: WANZELLER, 2010.

 

Gente tão doce, crianças felizes

São tantos os bairros, são tantos os verdes

São tantos os frutos, peixes.

Que fartura!

Todos se apaixonam por teus encantos

Tantos são os pontos de encontros

Tens um povo mui hospitaleiro

És um verdadeiro paraíso

És poesia, minha querida Mosqueiro.

 

Erica Jaqueline. “Meus Poemas e meus Versos”, 2007 – p. 13. DELTA gráfica e editora Ltda.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A ILHA CONTA SEUS CAUSOS: “O BOTO NO CARANANDUBA

 

Contam as antigas jovens do Carananduba que era de costume que as festas tradicionais acontecessem em três dias. Todas as moças faziam vestidos novos e se preparavam para dançar com os rapazes na pretensão de namorar, mas o preferido e disputado era um belo rapaz que se apresentava todo de branco (chapéu, calça, camisa e sapato), dançava até certa hora da noite e de repente sumia na escuridão da rua Lalor Mota em direção à praia, deixando as moças apaixonadas esperando a noite seguinte ou a próxima festa. Os rapazes não gostavam nenhum pouco da presença do galante sedutor. Uma certa noite um grupo de amigos resolveu seguir o belo rapaz para ver onde ele morava, já que ninguém o via durante o dia; chegando à praia ele caminhou na areia sob a luz do luar; aproximando-se da água tirou o chapéu e todos viram um buraco em sua cabeça; quando colocou o pé na água transformou-se em um boto; imediatamente todos tiveram uma forte dor de cabeça. Desde esse dia o belo rapaz não apareceu mais nas festas deixando muitas moças de coração partido.

(Caldeira, Gianny. Cartilha “Mosqueiro Ilha das Lendas”, 2009 – p. 15. CRAS – FUNPAPA, 2009, p. 15)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

CANTANDO A ILHA: O AJURUZEIRO

Autor: Graciliano Ramos

 

O verão chegando,

Eu aqui te esperando

No mesmo ajuruzeiro.

Ah! Se esta árvore falasse

E ao mundo inteiro contasse

Que aqui fui teu primeiro...

 

Minha fera feminina

Com esse jeito de menina,

Mas adulta para amar.

Serpente morena,

Que me envenena

Na hora de me beijar.

 

Corpo-rio de segredo,

Eu não tenho medo

De por ele navegar.

Meu amor, minha sina,

Você nem imagina

O quanto eu quero te amar.

 

Na Estação Primeira,

Com fantasia de praieira,

Você foi desfilar.

Bumbum de pandeiro,

Que mexe o dia inteiro,

Com ele eu a sambar.

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

NA ROTA DA HISTÓRIA:

:

MOSQUEIRO NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX

Autor: Augusto Meira Filho

“A verdade é que, até a metade do século, Mosqueiro se comportava com ( ) arrumação urbana precária, muitas vezes ainda em plena fase desenvolvimentista. A zona habitacional destinada ao nativo, essa se manteve quase sem modificação, no mesmo período de meio século que Mosqueiro viveu na dependência da navegação fluvial entre a Vila e a capital.

Devemos assinalar, nessa hipótese, a situação de todas as praias que seguem a partir do Carananduba em direção da Baía do Sol. Poucas pessoas revelaram interesse em edificar suas residências de veraneio na extensa zona e das mais belas do Mosqueiro. Além disso, alta, seca, sadia e própria ao fim a que se destina. A ausência dos serviços públicos, rodovia, água, eletricidade, transporte fácil, acesso à Vila, etc., contribuiria para essa posição de esquecimento que “Paraíso”, “Caroara” e o próprio “Maraú” e mais: “Conceição”, “Paissandu”, etc., tivessem permanecido isoladas de qualquer investimento novo, capaz de suprir suas necessidades urbanas e comunitárias. Durante muito tempo, Mosqueiro era a Vila; depois, estendeu-se. Passou a incorporar o Chapéu-Virado e, mais tarde, Murubira e Ariramba.

Mosqueiro estava dividido em duas partes: uma – a primeira – que recebia os fluxos e influxos da navegação pública e particular que dava vida à Vila balneária, ainda em termos de “Areião”, “Bispo” e “Praia Grande”. Daí se irradiava até ao Chapéu-Virado à época do bondinho puxado a burro e, depois, a vapor, alcançando as áreas do Chapéu-Virado e do Murubira; a segunda se limitava às barbas da Vila de Carananduba e prosseguia pelo interior insular, na direção de todas as outras praias com frente para o norte, em demanda da Baía do Sol.

Poder-se-ia, por extensão, dizer que as duas bahias (Santo Antônio a oeste e do Sol a leste ou nordeste) pontos extremos da Ilha do Mosqueiro, comandaram o crescimento da ilha, em função de sua conquista pelo braço do homem, inicialmente, todos bugres e, posteriormente, pelos colonos participantes da tarefa de contribuir com seu esforço no trabalho comum e civilizador do luso aqui instalado em 1616.

Marcada pela presença do belemita levando consigo o progresso do lugar, construindo e valorizando aquelas áreas distantes de Belém, a primeira zona do Distrito tornar-se-ia verdadeiro prolongamento da cidade, tendo em vista aquele êxodo do paraense em busca do lazer, depois da longa experiência alienígena demonstrada pela gente estranha à terra que aqui viveria em função de seu trabalho nas novas empresas de investimentos como estudamos, anteriormente. A continuidade desse interesse proporcionaria um permanente avanço da população de Belém, aproximando, sempre, o balneário, das afetividades e dos desejos dos paraenses moradores da capital.”

“Uma situação geográfica excepcional faria da Ilha do Mosqueiro uma dependência natural da vida urbana de Belém. Ontem, a “Ponta-do-Mel”, depois Pinheiro e, hoje, Icoaraci, também distrito importante de Belém, contudo, sob o aspecto de estação balnear, talvez pela sua posição continental (que deveria ser uma razão ponderável, positiva) ou razões imperiosas tivesse distinguido o Mosqueiro de quantas mais existem próximas a Belém. Claro que talvez a inexistência de praias no antigo Pinheiro, nesse caso desvinculado da ilha de Caratateua que lhe é anexada ao distrito, muito contribuísse para a total simpatia da população de Belém por uma ilha mais distante e de mais difícil acesso, sobretudo, pela sua circunstância de ilha.

Desde os tempos mais longínquos da formação social, política e urbana da cidade, seus habitantes e visitantes tiveram, sempre, uma natural tendência para aceitar o Mosqueiro como a Ilha Balneária por excelência do paraense e, por extensão, de todo amazônida.

As famílias residentes em Belém, excetuando-se aquelas que possuíam raízes no interior do Estado, à época da libertação escolar nos regimes das férias semestrais e anuais, não tinham outro caminho a seguir. Possuindo ou não residências na Ilha do Mosqueiro, para lá se atiravam com “armas e bagagens” a bordo de velhas embarcações da “Companhia do Amazonas”, do “Serviço de Navegação do Estado”, nos navios da primitiva “Port of Pará”, depois SNAPP, e hoje ENASA. Vapores particulares de grandes firmas comerciais aviadoras do alto Amazonas, igualmente, quando em recesso, na capital, proporcionavam viagens Belém-Mosqueiro. E em casas próprias, alugadas, hotel ou hospedaria similar, a gente boa de Belém se transferia para o balneário, numa luta enorme para se dar às crianças belemitas um pouco de liberdade, ar puro, folguedo e outras distrações indispensáveis a quem vivia no centro comunitário do Estado.

E quantas vezes, mesmo fora desse período, veríamos muitos casais procurarem o Mosqueiro, com os filhos enfermos, mediante conselho ou ordem médica. Cedo a meninada recobrava as forças, passavam-se os males, por milagre, voltava o apetite, a confiança, a alegria de viver. Valeria muito mais uma semana no Chapéu-Virado ou na Praia Grande, no Murubira ou no Ariramba, do que todos os medicamentos receitados. E o velho “Almirante Alexandrino”, de repente, enchia-se de sarampentos, de crianças com catapora e coqueluche, para sua cura total e miraculosa sob os ventos do Marajó!

Nem todos podiam desfrutar das águas do mar, em Salinas, pela distância e os incômodos da viagem com crianças. Ninguém poderia escolher uma fazenda no Marajó que também era difícil a quem não possuía propriedade naquele lugar.

O mesmo ocorreria a quem pretendesse ir mais longe, mesmo nas férias, a Santarém, por exemplo, ou a Bragança, a Soure, a Monte Alegre, belos recantos do interior, igualmente deliciosos, mas de acesso penoso e caro. Não havia outro rumo, outro caminho, outra escolha: Mosqueiro.”

(FONTE: MEIRA FILHO, Augusto. “Mosqueiro Ilhas e Vilas”- ED. GRAFISA, 1978- pp. 74, 75, 76 e 79)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A ILHA CONTA SEUS CAUSOS: O menino do igarapé dos Alunes

(Estória contada pelo comunitário e prof. Mauro Braga transcrita pela aluna Alessandra Cardoso – Turma 441 – EJA)

“Dizem que na rua Pratiquara, no bairro do Maracajá, há uns dez anos, morou um casal com dois filhos; o garoto mais velho tinha seis anos, ele vivia brincando nas margens do igarapé que existe nessa rua, o igarapé dos alunes. Um dia ele caiu no igarapé e morreu afogado; alguns dias após o enterro a família foi embora do lugar. Meses depois, ouvia-se o choro de criança na rua quase todas as noites, até que descobriram que era o garoto que havia morrido afogado no igarapé. Uma senhora, cujo nome não foi descrito, diz que quando ela trabalhava na creche que fica próximo ao cemitério onde ele fora enterrado, às vezes via o garoto escorado no seu túmulo, olhando para ela com os olhos cheios de lágrimas. Ela diz que o olhar dele foi o olhar mais triste que ela já viu na vida.

Até hoje dizem que ele aparece nesta rua, procurando por sua família que se mudou após sua morte.”

(Lima Gama, Rosangela C. e Santos Andrade, Simei. “Mosqueiro Conta em Prosa e Verso o Imaginário Amazônico”. PMB, 2004, p. 116)

 

MOSQUEIRANDO: É interessante como certas denominações surgem e mudam com o passar do tempo. Geralmente, nascem com fatos marcantes em determinados momentos e, se transmitidas por via oral para o futuro, podem mudar radicalmente, quando os fatos que lhes deram origem acabam caindo no esquecimento popular. Assim, aconteceu com o nome dado ao igarapé da estória acima: igarapé dos Alunes, que às vezes é nomeado igarapé dos Alunos. É evidente que se trata de um trecho do igarapé Tamanduaquara (lugar de tamanduá), no ponto final da Travessa Pratiquara. Sabemos que, num passado distante, aquele local foi o ponto de concentração das Santas Missões promovida pela Igreja Católica. Como lembrança ficou o Cruzeiro – que hoje não mais existe – e a denominação igarapé do Zalone, nome do padre italiano que foi o líder espiritual do evento.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

JANELAS DO TEMPO: ILHA E VILA

Autor: Augusto Meira Filho

 

Mosqueiro – ilha e vila – chegou ao século XX trazendo sua pequena bagagem histórica, desde os primeiros momentos da formação de Belém do Grão-Pará. Vimos, em seus detalhes, como isso se processou. Entrada a nova centúria e com ela resultados de 1889, com o advento da República, olhava-se o lugar já sob aquele novo hábito introduzido pelos estrangeiros que pontificavam nas empresas concessionárias dos serviços públicos de Belém. Os paraenses e, sobretudo o belemita, começavam a usufruir da influência alienígena o salutar desejo de um fim-de-semana em paz no “Chapéu-Virado”. Os antigos chalets serviam de modelo a outras edificações, avançando para o “Murubira” e o “Ariramba”. As obras afrancesadas de então davam os fundamentos para um sistema menos rico, mais vulgar, embora todo ele inspirado nas condições locais de cada edificação. Dessa experiência, nas praias do “Bispo”, do “Areião” e na “Praia Grande”, se erguiam moradias leves, de madeira, avarandadas e suspensas do solo o suficiente para a utilização do térreo e arejamento da construção. Dezenas de casas se construiriam nesse estilo tropicalizado para as residências no equador, às vezes até inspiradas em obras congêneres executadas em Cayenne e em Paramaribo, regiões do norte e quase do mesmo clima.

Ainda restam em nossas praias modelos semi-centenários dessas obras concebidas em função do clima, do lugar e das possibilidades financeiras de seus proprietários. Na orla fluvial da ilha, seguem-se, lado a lado, essas edificações curiosas, sempre em madeira e ornadas de belos terraços e lambrequins, ao centro de largos terrenos, verdadeiros pomares, moldurando a paisagem pitoresca do litoral mosqueirense. Sempre houve o hábito tradicional de se dar um nome que identifica essas vivendas. Além da homenagem a alguma pessoa da família ou a qualquer outro recanto de estimação, essas designações tinham sua função social: facilitavam aos famosos carregadores da ponte (trapiche) a entrega de mercadorias, encomendas, material de construção, etc., destinados ao Mosqueiro, transportados pelo navio da linha. De início, esse transporte se fazia duas vezes por mês pelos barcos da antiga “Port-of-Pará” modificado, depois, para três vezes por semana e, mais tarde, uma viagem diária de ida e volta, Belém-Mosqueiro.. De passagem o navio atracava no trapiche do Pinheiro (Icoaraci) e depois seguia para a ilha. Aos sábados, havia viagem extra às 14 horas e, aos domingos, duas vezes: 7 e 11 horas para veranistas que se destinassem ao Chapéu-Virado, retornando a Belém, ao cair da tarde. Essa mesma embarcação fazia, também, o percurso da capital à cidade de Soure, no Marajó, aos sábados e quartas-feiras. Dessa época, ficou na memória dos amantes da ilha do Mosqueiro a presença do navio “Almirante Alexandrino” com o seu querido comandante Ernesto. Tantas foram as viagens do saudoso barco que já se dizia à boca solta que ele seria capaz de desatracar do “Mosqueiro e Soure” em Belém, seguir e encostar na ponte do Mosqueiro, sem precisar de gente no comando. “Já sabia de cor o caminho e as manobras precisas...” Durante muitos anos o Comandante Ernesto dirigiu esse famoso Almirante Alexandrino. Várias gerações da cidade cresceram e se formaram, vendo, assistindo, aplaudindo a perícia desse admirável marinheiro. O Mestre-de-bordo, seus ajudantes, cabos e marujos, também, participavam das amizades de todas as famílias que, regularmente, se transferiam nas férias, para as praias mosqueirenses. Da mesma forma, durante anos, carregadores fixaram fregueses, colaborando, na hora trágica do desembarque. Recebiam encomendas remetidas de Belém pelo navio e, no Mosqueiro, se incumbiam de entregá-las aos caseiros ou a qualquer outro destinatário. Prestavam relevantes serviços, sobretudo às pessoas que mantinham contacto permanente com a ilha. Dadas as circunstâncias do lugar, próprio ao lazer, às folgas, às férias, essa palavra mágica e o “Alexandrino” estavam presos ao calendário de escolares e de quantos sabiam gozar nas praias as delícias de momentos de prazer e de paz. Isso ficou. E não há nenhuma pessoa em Belém ligada àqueles tempos que não passe à ilharga do Galpão Mosqueiro e Soure, sem revisar na memória as célebres partidas de cinco horas do Almirante, pleno de gente, de bagagem, de alegria, pois “ir ao Mosqueiro” sempre foi um prêmio à meninada e um justo repouso aos amadurecidos.

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O vapor Almirante Alexandrino (FONTE: MEIRA FILHO, 1978).

No período da guerra, para colaborar, a companhia colocou enormes vapores, vindos da América, na linha do Mosqueiro, quando afastados do trabalho de rotina.

Também no Galpão tradicional, carregadores e pregões se familiarizaram com veranistas que, em qualquer tempo, seguiam para o Mosqueiro. Transportavam material, davam recados, faziam compras e, nos dias tumultuados, adquiriam bilhetes numerados ou guardavam lugar na fila para esse fim. Amigos e colaboradores, esses carregadores estão ligados à vida do Mosqueiro em quase meio século. Pelos números, atendiam telefone, prestavam serviço e carregavam, muitas vezes, crianças e bebês, enquanto os pais cuidavam de acomodar suas tribos... No inverno, empunhavam guarda-chuvas, protegendo os fregueses, da rampa do navio até a cobertura do Galpão. Admirável trabalho que precisa ser assinalado, da maior importância, na história da Ilha do Mosqueiro. O mesmo fato, com pequenas alterações, ocorria no Mosqueiro. Ao desembarque alucinado, na ponte e na rampa de acesso ao local onde ficavam os ônibus do transporte interno da ilha. Aí, pela madrugada, carregadores madrugavam comprando passagens, despachando bagagens e procurando servir o veranista da melhor forma possível. Na “ponte” ficaram famosos o “oito”, o “sete”, o “dezoito” e o “vinte e oito”, mais ágeis e sérios, em quem a população depositava inteira confiança.

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Primeiro ônibus da Ilha do Mosqueiro (FONTE: MEIRA FILHO).

A receita municipal nunca poderia atender aos reclamos dos visitantes que sempre flutuavam em função de domingos e feriados. A precariedade do serviço na circulação dos veículos oficiais, isto é, da Agência, faria com que alguns particulares tomassem a frente desses trabalhos. Velhas camionetes, carros primitivos reformados, caminhões transformados em paus-de-arara, à chegada do navio, se apinhavam de gente, louca e fatigada, desejosa de chegar à casa e descansar da atribulada, embora pitoresca viagem de Belém ao Mosqueiro. Não havia na Vila veículos de aluguel, senão dois ou três caindo aos pedaços, mas que na hora do aperto se transformavam em belas limousines. O negócio era bom, quando a freguesia era permanente, justamente aos fins de semana. Os ônibus da Prefeitura, reduzidos e velhos, mal chegavam para os que se dirigiam à Praia Grande ou ao Farol. A linha ia até o Ariramba, primeiramente, depois, ao Carananduba. Antes, não ultrapassava o Chapéu-Virado ou voltava da extremidade do Murubira. Velhos motoristas conheciam as pessoas, as casas, os nomes das vivendas e até a empregadagem. Recordamos, nessa altura, a figura gorda, baixa e simpática do “Pipoca” e a do magricela, ranheta, com defeito físico, conhecido por “Narizinho”. Na área do serviço particular, mandavam o Cecy e o pai, ambos munidos de camionetes antigas, quase imprestáveis, mas seqüestradas por todo mundo que se dirigia às praias distantes. Essas figuras são parte da paisagem mosqueirense, tais como o Lacerda (vendedor de passagens), a D. Georgina (baiana), o caseiro André e o “Padre Serra” em seu Café, no mercado.

São figuras populares, cuja história se funde e confunde com a própria existência da ilha.”

( FONTE: MEIRA FILHO, Augusto. “Mosqueiro Ilhas e Vilas”- ED. GRAFISA, 1978- pp. 52, 55, 56 e 57)