terça-feira, 11 de setembro de 2012

JANELAS DO TEMPO: FIGURAS INCONFUNDÍVEIS

Autor: Augusto Meira Filho

Sempre dissemos que há uma fisionomia mosqueirense predominante na Ilha”. Há gente com cara de mosqueiro, cuja presença recorda, imediatamente, as eternas lembranças do balneário famoso do paraense. Comecemos pelo serviço judiciário em mãos daquela figura especial de Theóphilo de Araújo Lameira, já falecido, e a de seu herdeiro, do nome e do lugar, Amilton Quaresma Lameira. Do foguista (ao tempo da Usina de Eletricidade) Raimundo Valentim e a do seu Chefe: Joaquim Agrassar. O Cecy (com seu posto) que poucos conhecem como Raimundo de Assunção da Cruz.

O conhecido Mário “Maracujá” que ninguém sabe ser Mário Pontes de Carvalho. Pois o “Sete” – carregador estimado e amigo – chama-se Raimundo Costa.

O Lemuel Lopes da Paz com sua mercearia-restaurante e o Rufino Magalhães, vendedor de caldo de cana. E José Maria Ribeiro que é o atual proprietário do antigo Bar “Elite” do Antônio – “aguadeiro”. Impossível faltar uma profunda referência política: a das irmãs Dora com sua corajosa Francisca Dora Puga.

Também assinalar a patriótica presença, na Vila, de Marieta Contente Melo, operosa dona da Farmácia Moderna, seguida de Rosa Custódio sua similar de Nossa Senhora do Ó.

Recordamos o amigo prestimoso Manoel Joaquim Luna e o Orlando, que começou revisor de ônibus e acabou como comerciante em seu Bazar, ao lado da Igreja, sempre delgado, solícito, amável.

E lá para as nossas plagas no Diamante, valerá ressaltar o Cabo Victor, emérito pescador, o Pantoja, o Peroba, o Zito (surdo), o Matias, o Aurino, o Levindo. Também a simpática D. Georgina (baiana), com seu velho André, o maior caseiro da Ilha, com a Joana e a Maria, suas filhas. Também seu filho Raimundo (calango) que um dia salvou de afogamento no Farol o nosso colega Alfredo Boneff. Destaquemos o compadre Capitulino Rabelo e sua mulher Raimunda. A filha Elza, do primeiro matrimônio, casada com o Tertuliano Souza, e da segunda, seus nove rebentos que cresceram à sombra dos nossos bambus e hoje progridem na cidade, alegrando e orgulhecendo seus genitores.

E o João Louchard com sua brava Maria, o Luiz Anselmo com sua Ovídia, tão conhecida lavadeira chamada de Vivi? Os Cohem, Isaac (empregado do Zacharias e honrado serviçal) e o irmão, macumbeiro, vendedor de tapioquinhas, o Daniel, vizinho e contador de prosa. O velho marimbeiro Amâncio, companheiro da Brígida Lamego. Esta Brígida ainda reside no mesmo lugar, com seis filhos três claros e três escuros. Mulher admirável! Pobre, humilde, vivendo em uma casinha de taipa, coberta de telha, ao lado do atual Netuno Iate Clube. Não tem nada além desses filhos. Trabalha, luta, cria, serve a uns e outros, lava roupa e vai levando a vida como Deus manda. Um dia – nas férias grandes de julho de 1977 – achou na estrada, em frente a seu terreno, uma carteira cheia de dinheiro e de papéis. E viu em cartão preso no seu interior o nome e o endereço de seu proprietário. Procurou uma vizinha séria, a Elza filha do Capitulino, morador no Diamante, e não sossegou enquanto não convenceu a amiga de mandar uma de suas filhas, a Maria, acompanhando-a a Belém, para fazer a entrega da carteira achada.

Indescritível, depois, vendo-a relatar o espanto do moço da cidade em receber seu objeto sem nada lhe faltar. Gratificou generosamente Brígida, agradecendo seu gesto, afirmando, mesmo, que não mais tinha esperança de ressarcir sua carteira, sobretudo, valiosa, pelos documentos que continha. Ao despedir-se fez questão de afirmar, com eloquência, que atitudes como aquela há muito haviam desaparecido da face da terra. O encontro foi emocionante, conforme nos contou Maria, filha de Elza, acompanhante de Brígida a Belém só com o fim de entregar a seu verdadeiro dono, o achado acidental, no Mosqueiro. Fazemos questão de assinalar o fato, pela sua grandeza e significação.

Relembramos o Adelino, erguendo sua casa com sacrifício, em frente à nossa e que possuía uma grande qualidade: dava, ou melhor, aplicava injeções de qualquer tipo e era enfermeiro. Com a meninada em casa, longe de Belém, os melhores serviços nos prestaria, sempre com boa vontade e simpatia. Era irmão de D. Adelaide, esposa do mestre Zacharias.

E por falar, outra vez, no Zacharias, devemos recordar aquela figura magra, esperta, segura e trabalhadora, de dona Maria, a sogra do dono da casa, que madrugava, acordando hóspedes, preparando café e dando início cedo à sua luta no Hotel. Trabalhou muito toda a vida e morreu de velhice, sem moléstia!

Havia, no hotel, também, um empregado cabeçudo (doente) e uma cozinheira tão feia que alguém dissera (sic) serviria para “pousar” no atelier do artista brasileiro Cândido Portinari...

O Capitulino Rabelo não era do Mosqueiro. Nascido na Vigia, contudo, se instalara na Estrada do Diamante (quando ainda era do Pau-Grande) onde o conhecemos. Teve uma filha, com a 1ª. Esposa Adélia Farias. Com a 2ª. Consorte, vieram nove rebentos: Wivaldo, Osvaldo, Aurivaldo, Lourival, José, Laurinéia, Inez e Lucineide, esta última nossa afilhada.

Excelente criatura humana, serviçal de absoluta confiança, sério e responsável, ainda hoje nos serve com dedicação e verdadeira amizade.

Também vemos na pessoa da Antônia (filha de Luiz Anselmo), casada com outro Zacarias, uma criatura dinâmica, braço direito do esposo, ambos explorando na praia do Farol um pequeno pavilhão, que serve de tudo ao veranista. Não sabemos se ele continua, ainda, como funcionário municipal. Residem às proximidades do campo de aviação e do novo “Camping” recentemente instalado pela Prefeitura, no correr da Av. 16 de Novembro, à ilharga daquele campo. É uma das novidades da Ilha, instituído agora, na administração do Prefeito Ajax Carvalho de Oliveira.

Na prainha do Farol, próximo já à Praia Grande, pontificava o Caranguejo. Tinha uma bodega, negociava ao pé da estrada e era muito procurado porque vendia peixe fresco, toda vez que suas barcas apanhavam um bom filhote nas marés altas. Com uma buzina feita de chifre de boi, anunciava aos quatro cantos do bairro a chegada do produto. Também possuía carroças, para o transporte de material de construção e outras cargas.

Residindo bem perto do nosso Diamante, muitas vezes, apelávamos à sua camaradagem, para um passeio pitoresco à Vila, pela “carroça-da-linha”!

Aquela região da Ilha é muito habitada e construída. Nos velhos tempos, a Praia Grande foi centro social da Vila, à mesma época em que as festas na Vila Faneca ficavam marcadas na história do lugar. Entre esta Faneca e a casa do estimado amigo Chedem Bitar se situava o terreno imenso, verdadeiro bosque, residência dos Maristas e que ali se reuniam nas férias ou fins-de-semana. Amigos, todos, muitas vezes os visitamos para um alegre encontro, à sombra do belo arvoredo, saboreando vinho de missa e alguns quitutes regionais. Recordamos as figuras dos franceses Edmundo Dansot e André Delpuech, os mesmos que, um dia, nos fariam a surpresa de levar ao Diamante o Bispo D. Ives Bossière que, de passagem por Belém, visitaria a aconchegante Vivenda dos filhos de Champagnat, na Praia do Bispo. Entre uns e outros a casa do Noronha, o construtor oficial do Mosqueiro. Na passagem, o tradicional retiro Escalhão de um velho português, amigo do Mosqueiro e dos melhores.

Na Quarta Rua, residia o amigo Luiz Lima, pioneiro de nossa maravilhosa avançada a pé de Belém à Ilha, em 1959, que já relatamos. Dona Lúcia, o afilhado Antonio Maria, sempre dispostos à caminhada pela estrada até o Farol, onde aproveitavam as lindas manhãs do Mosqueiro, num delicioso banho no Farol e, depois, invariavelmente, passavam no Diamante para um drinque e um dedo de prosa. Velhos tempos, bons tempos, belos tempos, quando o Mosqueiro só era mesmo uma ilha. Na casa avarandada da 4ª. Rua, o doutor José Luiz Sousa Ferreira, quase sempre, reclamava o silêncio, a paz eterna, o “nada-que-fazer” e se dispunha com a família numerosa a nos responder:

-- Estou cansado disto aqui. Só se faz dormir, tomar banho de praia, comer e dormir de novo. Não aguento mais o chamado dos meninos, para ir lá fora e ver mais uma vez o “cruzeiro do sul”, ponteando no céu como uma dádiva. Ver toda noite, ou melhor, todas as noites o cruzeiro cintilante, anunciando os caminhos do sul. Nada mais. Uma sueca ligeira e toma rede até amanhecer. A viagem para a praia, o retorno no sol quente abrasando a sola dos pés, o desgaste físico do percurso de perto de uma légua, e eis umas férias mortificantes para quem não sabia ter espírito esportivo.

Ma para o grande dermatologista, o Mosqueiro era a liberdade, a fuga da luta citadina, do inferno dos hospitais. Ele sempre soube ser um notável mosqueirense, mesmo quando se mudou para o Chapéu Virado, em seu tranquilo apartamento no Lilian-Lúcia.

clip_image002

Viagem pitoresca em carro de boi (FONTE: Augusto Meira Filho)

FONTE: MEIRA FILHO, Augusto. “Mosqueiro Ilhas e Vilas”- ED. GRAFISA, 1978- pp. 385, 386, 387 e 388.

domingo, 9 de setembro de 2012

MEIO AMBIENTE: ILHA DO MOSQUEIRO: TENSORES AMBIENTAIS NO ESTUÁRIO AMAZÔNICO

Autor: Pedro Leão

clip_image002

Os tensores ou estressores ambientais podem ser descritos como qualquer fator ambiental que retira energia de organismos, restringe o crescimento e a reprodução deles, ou perturba o equilíbrio de um sistema mobilizando seus recursos e aumentando seus gastos energéticos (ODUM, 1988).

Nos ambientes aquáticos e seu entorno, muitos tensores ambientais têm se manifestado, decorrentes da supressão das matas ciliares, da excessiva exposição do solo associada a práticas agrícolas degradadoras, da introdução equivocada de espécie animais e vegetais, do lançamento de esgotos e lixo nas águas dos rios, da exploração inadequada de areia e argila, e em muitos casos, da falta de planejamento e cuidados com a malha viária local, causando carreamento de particulados para os leitos dos rios.

clip_image004

Estuários apresentam características ambientais únicas que resultam em elevada produtividade biológica. Esses ecossistemas desempenham papéis ecológicos importantes, como exportadores de nutrientes e matéria orgânica para águas costeiras adjacentes, habitats vitais para espécies de importância comercial, além de gerarem bens e serviços para comunidades locais.      .

Assentamentos urbanos e o desenvolvimento de atividades industriais, portuárias, pesqueiras, de exploração mineral, turísticas, entre outras, sem planejamento adequado, vem colocando em risco os atributos básicos dos estuários brasileiros e ecossistemas associados; resultando na diminuição da qualidade de vida da população local.

clip_image006

Tensores de origens antrópicas vêm pondo em risco os ambientes naturais e a vida no Estuário Amazônico, sendo este considerado uma das regiões mais produtivas do país, estimando-se que cerca de 40% da produção brasileira seja originária desta área. Esta riqueza faz com que o local seja um grande polo industrial de exploração de recursos pesqueiros.

As ilhas próximas à cidade de Belém como Combu, Onças, Mosqueiro e Outeiro, situam-se na área intermediária do estuário amazônico, ou seja, uma área de transição entre a água doce (ao sul da Baía de Guajará e à direita do Rio Guamá) e a água salgada (ao norte de Belém na altura da cidade de Colares). Dentre os ambientes que a integram estão os rios, igarapés, as florestas, a várzea, as baías, os campos alagados e as praias das ilhas.

clip_image008

Face a sua localização no Estuário Amazônico, a Ilha de Mosqueiro é influenciada ambientalmente pelo oceano atlântico.  A influência marítima do atlântico afeta as águas estuarina (salinidade), sobretudo quanto ao estoque pesqueiro e a dinâmica do sistema sustentável de pesca artesanal local.

Ao localizar-se no estuário Amazônico, a Ilha de Mosqueiro nas últimas décadas, vem sofrendo influência e recebendo impactos sócio-culturais e históricos de todas as ordens e em ritmo acelerado no seu espaço de ocupação e produção, pela ação de diversos atores sociais, pelo controle, uso e gestão de seus recursos naturais.

clip_image010

Na ausência de um plano de desenvolvimento local sustentável (PDLS) para as ilhas de Mosqueiro e políticas de gestão ambientais compartilhadas induzidas pela administração regional de Mosqueiro e em parcerias com outros órgãos de gestão e fiscalização em outras esferas, garantindo na forma da lei, uso, controle, promoção e gestão dos recursos ambientais, potencializam-se e desenvolvem-se tensores antrópicos na ilha, sobretudo na faixa litorânea e nos corpos d’águas que ali deságuam, trazendo fortes passivos ambientais ao local e comprometendo direta e indiretamente a qualidade de vida de sua população.

Baseado em literaturas da área cientifica e em observação in loco na Ilha de Mosqueiro, apresentamos o quadro abaixo, demonstrando os principais tensores, seus impactos e prejuízos.

clip_image012

Diante de sua dramática realidade, sobretudo sócioambiental, qual e como será o futuro desta comunidade tradicional da Amazônia, a bucólica Ilha de Mosqueiro?

clip_image014

Depende da responsabilidade de cada um... na vivência do presente e na construção de um futuro ambientalmente responsável para as gerações futuras! Moradores, visitantes e poder público, sobretudo da administração pública local!

clip_image016

REFERÊNCIAS:

Considerações Ambientais para o Desenvolvimento Sustentável da Atividade Portuária: uma análise da interface porto-estuário. In.:www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/rct20art12.pdf

FIDELMAN, P.I.J. Impactos causados por tensores de origem antrópica no sistema estuarino do rio Santana, Ilhéus, Bahia.

www.aba-agroecologia.org.br/ojs2/index.php/.../6639

Procedimento Administrativo N°. 1.23.000.002652/2007-11- MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Procuradoria da República no Pará.

www.prpa.mpf.gov.br/news/2011/AR_Poluicao...Mosqueiro.../file

www.basa.com.br/.../Revista/.../Revista_Amazonia_9_Completa.pdf

www.ibcperu.org/doc/isis/13408.pdf

FONTE: http://mosqueiroambiental.blogspot.com.br/2012/09/ilha-de-mosqueiro-tensores-ambientais.html

PESQUISE NESTE BLOG:

http://mosqueirando.blogspot.com.br/2011/07/ilha-de-mosqueiro-praticas-de-pesca.html

http://mosqueirando.blogspot.com.br/2011/09/pesca-na-ilha-participacao-das-mulheres.html

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

NA ROTA DO TURISMO: MOSQUEIRO: CONVITE AO ÓCIO

Autora: Claudia Nascimento

clip_image002

O que pensar de um lugar chamado Mosqueiro, conhecido popularmente como “A Bucólica”? A bucólica Ilha do Mosqueiro, embora o seu nome possa induzir à imagem de um lugar entregue às moscas, é o local de veraneio preferido da maior parte da população da região metropolitana de Belém. E não é de hoje que esta ilha com cerca de 212 km² no estuário dos rios Amazonas e Tocantins atrai àqueles que querem um bom descanso e repor suas energias.

clip_image004

Embora haja várias versões para a origem do seu nome, como local de desembarque de piratas ou como referência à, também pacata, vila portuguesa homônima, a mais popularmente aceita faz referência à técnica do moqueamento, isto é, uma forma de fumeiro lento feito em carnes e, especialmente em peixes, sobre trempes de madeira, que eram trazidos das baías do Marajó e Colares, ou mesmo da costa norte da ilha. No processo, pequenos cortes eram dados para melhor penetração do carbono – as mosqueias. Ao sul da ilha do moqueio (que depois, por corruptela, tornou-se Ilha do Mosqueiro) eram tratados estes produtos antes de serem levados à comercialização no mercado do haver-o-peso (conhecido atualmente como Ver-o-Peso), desde o século XVII. Já nesta época, as suas praias eram local estratégico para esta paradinha antes de seguir viagem.
Ocupada pelos índios tupinambás, é interessante notar que essa nação tradicionalmente guerreira não se importunasse com essas visitas fortuitas. Não creio que seja possível atribuir a este caso as propalada preguiça indígena. Defendo, contudo que deva haver uma relação indissociável entre a Ilha do Mosqueiro e uma certa vocação para a preguiça e a tolerância.

clip_image006

O primeiro núcleo de ocupação da ilha se fez ao norte, na vizinhança das piscosas baías do Sol e de Colares, de onde retiravam o pescado – nada mais cômodo – e lá surgiram as primeiras fazendas para o cultivo do gado e do ócio. O sul da ilha, no entorno de onde atualmente temos a praia do Areão, foi pouco a pouco sendo ocupado surgindo um novo núcleo urbano. Isto nos faz crer que a paradinha para a defumação do pescado foi se tornando cada vez mais longa...

clip_image008

Fato a se destacar é que seus 17 quilômetros de praias, cada uma com características geomorfológicas e paisagísticas diversas, são convite irrecusável ao ócio. Como resistir, sob o sol ou chuva equatoriais, à proteção dos ajirus, taperebazeiros, cupuaçuzeiros, murucizeiros e outras frutíferas, ao cheiro de peixe a assar lentamente, a brisa das praias de água doce com ondas? Isto sem contar os banhos nos gelados igarapés ou, vencendo o interior da ilha, nos rios que entrecortam matas densas de terra firme e manguezais!
Neste ritmo Mosqueiro foi se desenvolvendo até a população ser elevada à categoria de freguesia em 1868 e à vila em 1895, sendo a porção sul a sua sede.
Um lugar como esse não ficou alheio ao influxo econômico do ciclo gomífero do limiar dos séculos XIX e XX. Tendo a Vila uma ocupação crescente, a cerca de 40 quilômetros, por mar, da cidade de Belém, facilitou o acesso àqueles que queriam construir vivendas para o seu descanso. Desta forma, tanto os ingleses da "Pará Electric Railways Company", responsáveis pela instalação de energia elétrica e de meios de transportes interno, quanto alemães, franceses e americanos, funcionários de companhias estrangeiras como a "Port of Pará" e a "Amazon River", e mesmo os endinheirados seringueiros, balateiros e grandes comerciantes da época elegeram a Ilha como local ideal para o descanso. Muitos, inclusive, para se pouparem da jornada por terra até os seus chalés, construíam à frente destes seus trapiches e portos particulares, como os ainda existentes Portos Franco e Artur. Nem se esforçavam em entender esta terra: repetiam nestas plagas a tipologia arquitetônica nórdica e curavam-se de todos os males físicos e espirituais deitados em suas redes acompanhando o remanso da maré.

clip_image010

Atualmente podemos reafirmar esta vocação ao ócio. Não só pelas benesses divinas de seu clima e paisagem, mas por ser tratada como cidade turística de segunda residência. Alheios ao fato de sua população residente vir crescendo ao longo das últimas décadas – especialmente após a construção da ponte Sebastião R. Oliveira, inaugurada em 1976 que permite a ligação rodoviária Belém-Mosqueiro através de 86 quilômetros de estradas em quase duas horas de viagem – não existem indústrias ou mesmo comércio de grande porte nesta ilha que possui dimensão maior que a porção continental do município de Belém. Consequentemente o maior empregador é o poder público. Isto é, ou se é funcionário público (com todo o seu estigma) ou pescador, artesão, pequeno empreendedor..., atividades sazonais que levariam a população se esforçar no trabalho umas duas ou três vezes por ano: carnaval, julho e réveillon.
Como disse certa vez uma das herdeiras do mais tradicional hotel do Mosqueiro, o Farol: “Mosqueirense passa o dia esperando a maré encher para ver ela vazar. Passa o ano esperando julho chegar...”

clip_image012

Texto produzido em 2007 e publicado na Revista Pará+, quando eu completava sete anos como mosqueirense.

FONTE: http://marcosdotempo.blogspot.com.br/2009/06/mosqueiro-convite-ao-ocio.html

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

NA ROTA DA HISTÓRIA: ANTES DA PONTE, AS BALSAS.

“A PROVÍNCIA DO PARÁ” de 05/07/1968:

“BALSAS PARA O FURO DAS MARINHAS

Mostrando a sua preocupação em assegurar que tanto o Governo do Estado como o DER estão realmente interessados com o problema das balsas, o engenheiro Alírio César de Oliveira reuniu em seu gabinete a imprensa, ontem à tarde, adiantando que a construção de uma ponte ligando Belém a Mosqueiro, “pelo menos por enquanto, é coisa fora de cogitações”. Segundo o que disse, estudos hidrográficos têm sido realizados na área e para mostrar que o Governo não está desinteressado do assunto, lembrou que foi o próprio Tenente-Coronel Alacid Nunes, quando ainda prefeito de Belém, que solicitou aos extintos SNAPP que esses estudos fossem processados ali, com o levantamento do rio em várias transversais.

Segundo o pensamento do engenheiro, que é idêntico ao do Governador, há problemas muito mais sérios, como por exemplo, a construção da estrada Belém-Marabá, a serem atingidos de imediato do que a construção de uma ponte ligando a rodovia, não se deixando, porém, de lado o assunto.

CARINHO DO DEPARTAMENTO

Munido de fartos dados estatísticos, o engenheiro Alírio César de Oliveira, Diretor do DER, durante hora e meia palestrou com os homens da imprensa, fazendo crer que o Governo e o Departamento nutrem invulgar carinho pela questão de travessia no Furo das Marinhas, ao contrário do que muita gente pensa. Garantia que a partir do verão de 64 foram dinamizados os trabalhos na rodovia e já em 1965 se realizava a primeira travessia, em caráter – é claro – de grande precariedade, mas com um pioneirismo fora do comum. Toma nas mãos o Decreto-Lei de número 4840, de 9-8-65, do Governo Jarbas Passarinho, que constituía um grupo de trabalhos para elaboração de estudos na Rodovia Belém-Mosqueiro. A comissão era composta dos engenheiros Fernando Guilhon, Alírio César de Oliveira, Luiz Baganha, José Rui Pantoja Pimentel e Raul Rodrigues Pereira. Após vários estudos, essa comissão apresentou seu relatório, em 22-9-65, demonstrando que a construção da ponte não envolvia imediaticidade.

De 1964 para cá, o problema tem sido atacado, diz o engenheiro-diretor. A construção de uma ponte, no momento, atingirá a fabulosa soma de 6 a 8 bilhões de cruzeiros e o DER não tem o menor interesse, pelo menos por enquanto, em atacar esse problema, quando há outros de maior seriedade e urgência que esse.

O engenheiro Alírio César, no entanto, abria um parêntese para avisar de que se aparecessem firmas particulares ou sociedades de economia mista com o firme propósito de, depois de uma concorrência, construir a ponte, não haveria nenhum impedimento por parte do Departamento, que também não se responsabilizaria por qualquer fracasso no empreendimento.

Continuou lembrando que a conclusão da Estrada se deu em 1966 e que nessa época o DER manteve um serviço gratuito de travessias através de balsas, pelo que foi muito criticado. Dessa data para cá, não mais deixou de se preocupar com o problema, adquirindo a balsa “Tamandaré”, no valor de duzentos e cinquenta milhões de cruzeiros. Para este ano, já tem outra balsa menor, pronta, no valor de cento e sessenta milhões, e já está adquirida uma balsa para 80 passageiros sentados.

De qualquer maneira, pelo que diz o engenheiro, a implantação do serviço de balsas para travessias no Furo das Marinhas já demonstra que o Departamento não está esquecido do problema e que pelo contrário, o enfrenta com invulgar carinho.

PONTE É PROBLEMA

O engenheiro Alírio César garante que “entre colocar o dinheiro do Departamento numa ponte do Mosqueiro, eu prefiro colocá-lo numa estrada para Marabá”. A solução é muito pesada e não seria possível ao DER lançar uma concorrência antes de um estudo meticuloso sobre o problema. Por exemplo, já foram consultados dois oficiais da Marinha, engenheiros, que, depois de demorados estudos na área, elaboraram um relatório afirmando que as balsas solucionam o problema e que a construção de uma ponte em caráter imediato é utópica. Não há rentabilidade suficiente para a realização desta construção.

Logo depois disso, um austríaco ainda chegou a Belém e igualmente foi fazer estudos no Furo, desinteressando-se totalmente pela empreitada e não mais falando no assunto. É claro que há necessidade de maior profundidade nesses estudos, segundo o que pensa o engenheiro. A ponte, no entanto, sairá mais cedo ou mais tarde, não resta a menor dúvida, e a vontade do Diretor do DER é de que se concretize ainda em sua gestão.

ESTATÍSTICA DO DEPARTAMENTO

Em 1965, atravessaram no Furo, sobre balsas, 288 veículos. Em 66, 5.108. Em 67, 17.021 e, no ano seguinte, até a presente data, 8.846, apresentando um total de 31.263 veículos atravessados. 140.000 passageiros atravessaram, também, sobre as balsas. E como arrecadação, de agosto a dezembro de 67, houve um total de 80.081,40. Em 68, a renda já atingiu a 53.307,20, dando um total de NCr$ 136.388,60. Houve, nesse período todo, uma despesa de 464.644,02. No último cálculo, segundo o que garantiu, não estão ainda computados os motores das balsas recém-adquiridos e duas lanchas adquiridas pelo SESP. Portanto, o DER já empregou, aproximadamente, NCr$ 700.000,00 nas travessias do Furo das Marinhas. Já estão sendo construídas estações de passageiros, um bar e até o fim do ano se pretende colocar em funcionamento balsas motorizadas para a travessia de veículos e uma de oitenta cadeiras para passageiros, um rebocador e duas lanchas.”

clip_image002

1ª. balsa a cruzar o Furo das Marinhas com o carro oficial do Gov. Jarbas Passarinho, em 01/12/1965. Na foto, o Governador cumprimenta o Prefeito Oswaldo Mello.

FONTE: MEIRA FILHO, Augusto. “Mosqueiro Ilhas e Vilas”- ED. GRAFISA, 1978- pp. 482, 483 e 484.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

CANTANDO A ILHA: OÁSIS MOSQUEIRO

Autor: Assis Oliveira

clip_image002

TRAPICHE DA VILA na década de 1960 (FOTO: Antonio Rocha Penteado)

Ainda lembro aquelas tardes em Mosqueiro

Na orla fervendo apinhada de gente

E o trio que levava o mundo pra frente

Do lado da praia, até fevereiro.

 

 

Lembro as chuvas nas tardes cinzentas,

Da bola parando em poças na areia

E o garoto novo que aos peixes margeia

Armando ciladas, ah! sempre tão lentas.

 

 

Recordo estações: caju e pescada,

Do tempo das pacas, jambo e acerola,

Das ondas surfadas na breve marola.

Tempos de criança, de brincar na calçada.

 

 

No gasto arraial sem roda gigante

As belas barracas das Donas de Mingaus,

Que tantos provei em outras naus

Mas só aqui achei sabor tão instigante.

 

 

Da ponte que corria até o meio do mar

Buscava, dos barcos, ribeirinho e turista,

De noite eu pensava ser só uma pista

Feita na medida pra pescar e namorar.

 

 

Tinha a estação da chuva, que era verão

E a estação das secas, que era inverno.

Boas horas de sossego quase eterno

Que às vezes pergunto: não fora ilusão?

 

 

Mosqueiro tão bela, a ilha-cidade,

Prendada de dotes pra quem lá morava.

Na volta das férias a saudade chorava

Do sonho hibernando e o acordar da realidade.

sábado, 1 de setembro de 2012

JANELAS DO TEMPO: NA PRAIA DO CHAPÉU VIRADO

Autor: Francisco Simões

“Em certos dias muito me atormenta a realidade em que tenho que continuar a viver sob o aspecto tanto nacional quanto global. Diria que o presente não soube construir o futuro com o qual, em meu passado, tanto sonhei.
Mas preciso viver e, apesar de tudo, continuar a alimentar meus sonhos embora o real os defina como meras utopias. Que seja, mas tento resistir para acreditar em mim mesmo, na vida, no amor, na poesia, ou eu seria um morto vivo.
Momentos há entretanto em que prefiro mergulhar no meu passado, reviver períodos de imensa felicidade com os quais a lembrança me premia em forma de saudade. Doce saudade, infância, família, paz, férias. Anos 40 a 50.
Algumas vezes meus pais nos levavam a viver deliciosas férias na praia do Chapéu Virado. Ela se localiza na Ilha do Mosqueiro, há alguns quilômetros de Belém (PA). Naqueles tempos a única forma de lá se chegar era uma viagem de cerca de 2 horas num pequeno navio. Ele cortava lentamente as águas doces da Baía de Guajará.

Hoje, pelo que sei, as pessoas podem chegar ao Mosqueiro por terra, de ônibus ou em seus próprios carros. Fico imaginando que a paz que tanto amei naquele paraíso deve ter-se mudado de lá atualmente. É possível que tenha levado o silêncio consigo.

O barco aportava no pequeno ancoradouro da Ilha. Dali nos dirigíamos em pequenos ônibus, antigos, ou em charretes, pelas ruas, todas de chão, até chegarmos à praia de Chapéu Virado. Confesso que não conheço a origem daquele nome, mas lhe caía bem.

Sempre nos hospedávamos no Grande Hotel do Russo, um senhor forte, grande, corado e muito amigo dos meus pais. Pela manhã acordávamos cedo, já nos trajávamos apropriadamente para a praia e, após o desjejum nos dirigíamos às areias de Chapéu Virado.

O Hotel tinha dois blocos, o antigo, mais confortável, localizado entre árvores, e o mais moderno, um tanto frio na estrutura e nos seus cômodos. Costumávamos ficar ora num ou no outro.

O nosso toque de recolher ocorria ainda muito cedo. Não havia TV e, ademais, a ansiedade na espera do sol para a manhã seguinte nos impelia ao sono logo nas primeiras horas de cada noite.

A praia ficava bem em frente ao Hotel e a pouca caminhada. Meu pai era um exímio nadador e eu um péssimo aprendiz de.

Afinal o “sêo” Mário fora remador dos bons da equipe de primeira da Tuna Luzo Comercial, e também campeão paraense de remo, por vários anos. Ele fazia questão de me dar umas aulas juntando sua técnica a uma paciência de Jó. Acabei aprendendo mesmo, apesar de aquelas praias serem todas de água doce o que facilitava a gente afundar mais rápido. Mas o professor era ótimo.
Na continuação da praia, para a esquerda, estava a praia do Farol. Ele se erguia sobre umas grandes rochas. Correr e jogar bola eram atividades indispensáveis, além de tentar nadar. Íamos até o Farol pegar alguns moluscos. Havia muitos por lá.

Após o almoço eu gostava de dar umas escapadas, sair sozinho do Hotel e ir até à praia enquanto o resto da família tirava sua sesta. Criança tem lá suas limitações impostas pelos cuidados maternos e paternos, claro, mas como eu não era de dar muito trabalho conseguia momentos de fuga para curtir sozinho a orla marítima.

Agradava-me muito andar calmamente pela rua em frente à praia, apreciando a beleza das casas, sentindo a brisa fresca e amena daquele horário, aspirando fundo o ar puro e me deleitando com o cheiro delicioso das inúmeras mangas rosa.
Além do mais deixava meus pensamentos voarem, e o ambiente era muito convidativo a meditar. Por outro lado eu já era um bom sonhador desde criança.
Entre as casas e a praia havia muitas mangueiras que também nos ofereciam sua sombra reconfortante. Quanta saudade daqueles maravilhosos momentos.
Nada havia a temer, apenas curtir e curtir muito aquele pequeno paraíso. Eu esquecia a hora e ia caminhando e parando, me deixando envolver pelo silêncio amigo enquanto minha mente de menino viajava por uma felicidade que parecia eterna.

Levava meus passos até o farol e de lá voltava no mesmo ritmo. Quantos anos se passaram, quantas décadas, uma vida quase inteira!

Ilha do Mosqueiro, praia do Chapéu Virado, um sonho real do passado que não voltará mais. Restaram essas lembranças maravilhosas que preenchem minha vida, ainda hoje, quando a realidade atual nos sacrifica ou desanima.

Francisco Simões. (Outubro / 2006)

FONTE: http://haroldobaleixe.blogspot.com.br/2009/04/mosqueiro-ilhas-e-vilas-in-post.html

O autor:

clip_image002

“Aos 17 anos eu já trabalhava no rádio paraense (Marajoara e Rádio Clube do Pará) por concurso. Fui locutor, produtor de programas e escritor de crônicas diárias.
Durante cerca de 20 anos pertenci ao quadro da ABAF – Assoc. Brasileira de Arte Fotográfica (Rio). Naquele período ganhei mais de 1000 premiações nos salões mensais e anuais da ABAF. Destaco “Prova do Mês” e “Prova do Ano” que venci em várias oportunidades. Durante o auge da bitola super-8 produzi vários filmes de curta-metragem durante o regime autoritário. Participei de muitos eventos do gênero pelo Brasil, principalmente os realizados em Universidades e Centros de Treinamento Profissional como o CEFET de Curitiba. Logrei ganhar vários prêmios de destaque naqueles Festivais e Mostras com filmes basicamente apresentando crítica social e política. Algumas vezes tive problemas, mesmo sendo um trabalho amador, com a Censura da época.

Trabalhei por 30 anos no Banco do Brasil onde fui não só bancário mas também professor, coordenador e programador de cursos, chefe de um grupo que produzia módulos audiovisuais para palestras e aulas, Assessor no Gabinete da Presidência da PREVI do BB entre 1982 e 1986 quando me aposentei. 
Após a aposentadoria parti para exposições de minhas “Fotografias Artesanais” a um público maior que o da ABAF onde convivera com grandes mestres por 20 anos. Realço as seguintes Exposições: “Na Sala de Arte do Jardim Botânico (RIO); no Espaço Cultural do Planetário (RIO); no Salão de Arte da AABB-Lagoa (RIO); no CHARITAS, em Cabo Frio (RJ), uma individual mais duas no Espaço Cultural de lá em exposições coletivas de ARTE VERÃO e mais recentemente na Biblioteca Municipal Walter Nogueira com 20 fotos e 20 poesias; no transatlântico “Eugênio-C”, em viagem para a Europa, no Salão Âmbar e no Corredor de Arte daquele navio; na APAF-Assoc. Portuguesa de Arte Fotográfica, em Lisboa, Portugal; no Espaço Cultural da Prefeitura de Teresópolis (RJ); na Galeria de Arte da artista plástica Lenita Holtz, em Teresópolis, etc. No dia 11. novº. 2000 a Câmara de Vereadores de Cabo Frio (RJ) concedeu-me o título de “Cidadão Cabofriense” pela divulgação graciosa que faço há anos daquela cidade que tanto amo através de vídeos amadores, mas com toque de profissionalismo em sua produção bem como através de “Fotografias Artesanais” e exposições em Cabo Frio e fora dela. Em 1994 voltei a escrever poesias o que parara de fazer há muitos anos.

Francisco Simões”

FONTE: http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm