segunda-feira, 14 de maio de 2012

CANTANDO A ILHA: NAQUELE TEMPO… (OU BISPO AGORA-ONTEM)




Autor: Prof. Alcir Rodrigues


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Neste novo amanhecer na praia
― a do Bispo ―, há uma névoa
cristalina que quer esconder
a realidade presente e revela
espontaneamente um outrora
ante minhas retinas estupefatas.




A lenda impele sua indistinta figura
no lento rumo daquele monumento:
São Pedro, imagem do santo pescador
decaído, que a baía já engoliu de todo.




Este é um olhar na direção da seta
apontando o que já-foi, tempo (tardio
tempo!) do qual ficaram somente
migalhas na palma de minha mão,
onde pousa este um pássaro etéreo
que vem mariscar e deixa, apenas,
o cuí indistinguível do tempo ido...




E voa... voa... e fico contemplando
sua sombra a se desvanecer nas nuvens.


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Praia do Bispo

terça-feira, 8 de maio de 2012

A ILHA CONTA SEUS CAUSOS: O JOVEM ADORMECIDO 2

Autor: Cândido Marinho Rocha

 

“Na casa de Anacibe, os acontecimentos decorriam em atmosfera de risos e piadas, pois descobria-se, de repente, que o fantasma do cemitério existia em carne e osso. Era a filha de um bodegueiro lá das bandas do Natal do Morubira, moça de beleza nativa bem acentuada, possuída dos demônios.

Menina criada sem companhia de mãe, irmãs ou primas, isolada, vivendo às margens do deserto mental, sem estudos ou contatos civilizados, foi por isso transferida já mocinha para a Vila, a morar em casa de parentes, de favor. Sua vida passou, assim, a ser mais opressiva. As mortes sucessivas de seus entes mais queridos teriam ocasionado o trauma que desequilibrou sua libido, tornando-a um caso patológico. Estancada a libido, a tensão psíquica aumentou extraordinariamente, tornando-se neurótica. Havia quem dissesse que a menina fora inocentemente levada a praticar o incesto, prática com a qual sua natureza se acalmava. Mortos pai e irmãos, surgira o desequilíbrio. Tornara-se, portanto, incapaz de dominar seus instintos, mas não perdera totalmente a personalidade. Bonitinha, calma, operosa, vivia quase de modo irreal, trabalhando nos assuntos domésticos, sem aspirações senão aquelas que, partindo do âmago da sua natureza, pediam inutilmente. Após uma série de vigilantes cuidados, as pessoas de sua residência, habituadas à sua passividade, reduziram a preocupação com a moça, do que se aproveitava para, à noite, enfeitar-se, dentro do seu mundo coercivo, e sair à rua, a procura de aventuras, abúlica, amoral, magnífica.

A amnésia infantil concedia-lhe a graça do esquecimento quanto aos atos praticados com pai e irmãos, mas sua personalidade vibrava ao descobrir alguém que fosse parecido com eles e tendia nervosamente no sentido daquela pessoa, com os instintos soltos, desenfreados. Mas, dentro de tudo, unia o cemitério à pessoa dos mortos, pois ali os deixara. Em consequência, para ali se dirigia sempre que colhia um admirador inadvertido. Sentia-se mais desesperada ainda, decepcionada, frustrada, irremediavelmente nula quando, às proximidades do campo dos mortos, os admiradores eventuais retrocediam e a abandonavam. Dirigia-se então ao primeiro túmulo, sobre o qual repousava a cabeça e a mente e dormia, na serenidade do imenso silêncio dos sepulcros, sob chuva, trevas ou estrelas. Quando o dia amanhecia, a moça já se encontrava em casa, corretamente aplicada aos seus deveres. Enchendo água retirada do grande poço, limpando o vasto quintal, verdadeiro pomar, apanhando frutas, cantando...

Tornou-se necessário que Anacibe visse à luz do dia a bela mulher das beiradas do Morubira para se certificar de que não fora vítima de assombração.

Desde então, voltou à sua vida anterior, curado, limpo, ou melhor, sujo outra vez, capaz de novas investidas noturnas, conquistas pequeninas e passageiras. Sem histórias.”

FONTE: MARINHO ROCHA, Cândido. “Ilha Capital Vila”- GRÁFICA FALANGOLA EDITORA. Belém-Pa, 1973- pp. 111 e 112.

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O Jovem Adormecido

quinta-feira, 3 de maio de 2012

JANELAS DO TEMPO: MOLECAGENS DO PASSADO 3

“O Caso da Galinha Carioca”

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“Madrugada afora, os Farahzinhos e sua turma faziam uma pausa nas brincadeiras e descobriam que estavam com fome. Que fazer? Claro que não era uma fome de chegar na cozinha e tal, beliscar alguma coisa e sair fora. Não, o gostoso para eles era conseguir um rango legal, mas batalhando. O clima ameno de Mosqueiro – madrugada abria o apetite e o gosto pela aventura.

Esse gosto pelo inusitado, pela emoção da aventura transcendeu a própria fome: os Farahzinhos bolaram um plano a longo prazo, isto é, conseguir uma galinha gorda e nutrida mas para ser comida no dia seguinte. Na vizinhança, havia uma senhora da alta sociedade, daquelas damas que nutria uma verdadeira paixão pela boa cozinha. E ela tinha ensinado aos Farahzinhos, isso sob rigoroso sigilo, o modo perfeito de preparar uma galinha, mas tinha que ser uma ave preta. Seguinte: depois de um mês de limpeza com sal amargo e limão galego, a gulosa dama deixava a galinha de quarentena se alimentando apenas de milho e pasmem! chá de erva cidreira de folhas miúdas. Ela explicava, com os olhos brilhantes, que esse requintado e exclusivo processo aromatizava de maneira especial a carne da ave, superando a do faisão.

Aliado à tentadora vontade de saborear prato tão exótico, os Farahzinhos tinham aprendido com um “macuqueiro” (ladrão de galinha) uma maneira habilidosa de roubar os galinheiros. “É o seguinte, malandros”, confidenciou o macuqueiro, “vocês pegam um saco de sarrapilheira molhado e adentra o galinheiro, com muito cuidado pra não acordar o galo, porque aí, malandro, quem entra bem é vocês. Bom, então vocês aplicam a técnica do papagaio: escolhem a vítima, chega perto e bate com suavidade nos pés dela, daí o pezinho se enrosca nos dedos, então joga o saco. Vai firme que é moleza”. Dito e feito. Naquela mesma madrugada, os Farahzinhos aplicaram a lição do mestre macuqueiro no galinheiro da confiante dama e a mais gorda e bela galinha preta foi surrupiada. Já em casa, Joseph agarrou a penosa pelo pescoço e auxiliado por Alexandre raspou cuidadosamente todas as penas do pescoço, com uma longa e afiada faca. Em seguida, a galinha, já despida de boa parte das penas, foi novamente posta no galinheiro da madame.

No dia seguinte, a segunda e genial parte do plano. Bem cedinho, Joseph e Alexandre bateram na porta da vizinha.

-- Bom dia, dona fulana!

-- Oh, bom dia, meninos, que é que está havendo, tão cedo aqui?

-- É o seguinte. A mamãe pediu pra senhora ver, por gentileza, se escapou para o seu quintal uma galinha carioca. Ela é preta e de pescoço pelado. Será que a senhora poderia...

-- Uma galinha carioca, ah, pois não. Ó Maria, vê aí no quintal se tem uma galinha carioca, e tal.

Não demorou muito lá vem a empregada com a tal galinha carioca, pescoço pelado, etc. A dama gentilmente entregou a ave, com pedidos sorridentes de desculpas: “não sei como veio parar aqui” e tal. E nunca uma galinha foi tão requintadamente saboreada, uma banda só para os Farahzinhos e o resto para a turma. Quanto à dama lograda, claro que dias depois percebeu o logro em que caíra, mas não disse nada, só que durante longos tempos desapareceu a simpatia e os sorrisos da boa senhora com os Farahzinhos.”

FONTE: Texto e ilustração (caricaturas): Especial de Férias de O Estado do Pará, de julho de 1978.

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Molecagens do Passado

Molecagens do Passado 2

terça-feira, 1 de maio de 2012

JANELAS DO TEMPO: PARTIDARISMO NOS PRIMEIROS TEMPOS DO DISTRITO

Autor: Cândido Marinho Rocha

“A Vila possuía também tipos originais, populares, frutos da época, envolvidos pela bulhenta política partidária. Um destes, de nome Manuel Jovino, homem de cor, baixote, magro, era destemido capanga de um dos chefes políticos locais. Certa vez, obrigou um Coronel da Guarda Nacional a dançar nu na própria residência. Manuel Jovino encontrou-o escondido embaixo da cama, não o escandalizando devido aos aflitos pedidos da esposa. Mas cantou e forçou o homem a cantar também ali no quarto, em presença da mulher:

 

Eu estou nu

Não estou vestido

Nem remendado

Nem remendado

Estou dançando

Pra não morrer

Pra não morrer

Jovino era laurista e o tal político era conservador, dois grandes e intransigentes partidos que movimentaram a vida no Pará. Ninguém escapava: era laurista ou conservador. A punição deveu-se à circunstância de ter o homem declarado, no apogeu da campanha eleitoral, que se perdesse “tocava fogo no Mosqueiro”. Perdeu, foi punido, retirou-se da Ilha, onde nunca mais foi visto.

Como pelo resto do país, assim era, nos lugarejos distantes, o exercício da política partidária. Aquele que perdia a eleição perdia também o direito à cidadania, ao respeito, às amizades, pois tudo lhe era negado até o simples direito de fitar pessoas, na rua. Tudo se transformava em zombaria, insulto, represália, vingança, pancadaria. Na Ilha, todavia, um humor sombrio mas revelado claramente evitava crimes. Uma surra, um purgante, uma carreira, um susto, certa frieza social, exclusão do condenado ao ostracismo até nas participações de festejos religiosos como Juízes, Mordomos, Leiloeiros.”

FONTE: MARINHO ROCHA, Cândido. “Ilha Capital Vila”- GRÁFICA FALANGOLA EDITORA. Belém-Pa, 1973- pp. 30 e 31.

MOSQUEIRANDO: lauristas: assim eram chamados os partidários de Lauro Sodré em oposição aos lemistas, simpatizantes de Antônio Lemos. Este e aquele foram os chefes das duas grandes facções políticas que dividiam o poder em Belém e no Pará, na época citada no texto.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

NA ROTA DO TURISMO: ITAPEUAPANEMA

 

Subindo o rio Pratiquara, o seu tributário Caruaru e entrando pelo igarapé Itapeuapanema, chegamos à tranquila povoação divulgada pela mídia no final da década de 1970, por ter recebido, segundo seus moradores, a visita perturbadora do OVNI denominado, na época, “Chupa-chupa”.

O nome do lugar, geralmente usado de forma abreviada (Tapiapanema), é de origem indígena (ita: pedra + peua: grande + panema: azar), significando “pedra grande azarada”.

Nessa povoação, que fica no interior da ilha do Mosqueiro, vive uma comunidade tradicional, tendo a pesca e a agricultura de subsistência como atividades econômicas e a Festividade de Santa Maria – no final de maio e início de junho – como seu evento religioso e profano mais importante.

No domingo passado, estivemos em Itapeuapanema para assistir à abertura do Campeonato de Futebol da localidade, que reúne vários times da área ribeirinha, e aproveitamos para captar algumas imagens:

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sábado, 21 de abril de 2012

JANELAS DO TEMPO: CINE GUAJARINO

Autor: Wolney de Vasconcelos Dias

clip_image002 Ao fundo, da metade para cima, à direita, uma das poucas imagens da fachada do Cine Guajarino, que durou de 1912 até 1976, segundo Pedro Veriano, no livro Cinema no tucupi (Secult, 1999, p. 40).

 

 

“O primeiro cinema de Mosqueiro era localizado no Mercado Municipal. Não chegamos a conhecê-lo, ali. Quando isso aconteceu, já funcionava em prédio próprio, construído a mando de Artur Pires Teixeira, a quem, aliás, muito deve Mosqueiro. Morava ele no Porto Artur, local assim denominado por ter sido pioneiro em construir, ali, sua chácara. De carruagem, com uma parelha de cavalos bem tratados, com faróis laterais e cocheiro, visitavam, ele e sua família, algumas vezes, a Vila e o cinema.

A vendedora de ingressos era dona Alice: simpática, cabelos grisalhos, muito atuante. O porteiro era o seu marido, o Sr. Valdomiro, que vendia frutas no mercado, onde tinha um aparador. Eles acompanharam por muitos anos toda a trajetória do Cine Guajarino. De início, o cinema era mudo, animado apenas pelo conjunto musical do Paizinho, que tocava seu violino, ou, quando o filme era triste, roncando sobre o rabecão -- apelido que dávamos ao contrabaixo. O conjunto ia assistindo ao filme e, conforme a cena, atacava com o repertório. Quando se tratava de uma cena amorosa, ouvia-se a tão decantada valsa:

“Tão mimosa, graciosa e angelical,

Nasceu em meu jardim uma linda flor,

Naquela noite santa de Natal,

No momento em que juramos eterno amor.

No entanto, você a tudo esqueceu,

Trocando meu coração por outro ser.

E flor, ao ver então sua ingratidão,

Murchou e se desfolhou até morrer.”

Pode acontecer não estar correta a letra; todavia, é assim que nos ocorre no momento.

O Cine Guajarino foi inaugurado em 1931, segundo constava na sua placa de inauguração. Nessa época, tínhamos apenas 7 anos. Marido e mulher tomaram conta do cinema anos a fio. Foi quando tivemos consciência de que no cinema o seu operador era o Sabá, antes havendo sido o Sr. Alvarez (pai dos nossos amigos Alfredo, Francisco e Oderfla). E Sabá, já em nosso pleno entendimento, era homem de sete instrumentos. Curioso, consertava relógios e tantos outros aparelhos. Juntou-se a Margarida, que fora empregada de nossos avós.

Eu fazia a pintura das tabuletas do cinema. Esmerava-me da melhor maneira, e minha paixão por cinema era tão grande que passei a ajudar o Sabá no seu serviço, enrolando os carretéis das fitas e aprendendo a ser operador. Esse pessoal compunha o quadro vivo do cinema de nossa geração.

A coqueluche da época eram os seriados que passavam aos sábados. A rapaziada fazia de tudo para não perdê-los. Para arranjar dinheiro, tudo era válido, até mesmo tirar ovo de galinha choca, quando se descobria. Dizia-se que o camaleão os havia comido, todos. Nós tivemos sorte por o Comandante Ernesto ter passe gratuito para quatro pessoas, dado pelo Sr. Artur Pires Teixeira.

Os seriados mais famosos foram Os perigos de Paulina, Sertão desaparecido, Trem ciclone, com o formidável John Wayne, e A visão fatal, com o terrível Bela Lugosi. Deste seriado temos gratas recordações, pois, pela primeira vez, vimos a televisão: o chefe da gangue dava suas ordens através do video e logo desaparecia. Quando vimos isso, todos gritaram: -- É mentira!

Como poderia ser possível transmitir a imagem através de distâncias? Felizmente hoje estamos vivendo essa realidade e tantas outras. Espantava-nos o seriado de Flash Gordon, com Buster Grabe, do planeta Ming, e as viagens espaciais. Se vivermos mais alguns anos, quem sabe se até não faremos uma?... Na marcha do progresso, nada é impossível!

Nesse tempo, o cinema mudo estava superado, pois a novidade despontava com o sonoro, mais tarde o colorido. O cinema continuava a ser a única opção de lazer na Vila. Havia duas matinês aos domingos.

Nesse tempo, o ruim mesmo era não saber escolher a namorada. Teria que ser uma que não tivesse muitos irmãos, senão saía cara a brincadeira, pois todos iam, diziam seus pais, para vigiar a irmã. Foi bem marcante essa passagem do Cinema Guajarino em nossa vida”

                                                  ***

O AUTOR: Wolney de Vasconcelos Dias (1924-2012), irmão de Joana Maria de Vasconcelos Dias e tio do Prof. Alcir Rodrigues, foi Agente Distrital de Icoaraci e Prefeito de Primavera e Capitão-Poço. Viveu sua infância e juventude no Mosqueiro e aqui quis ser sepultado. Seu amor pela Ilha era tão grande a ponto de querer que suas cinzas fossem lançadas na praia do Areião, recanto que o viu crescer. Wolney Dias escreveu suas memórias abordando sua vida no Mosqueiro, nas décadas de 1930-40-50, crendo que vivenciava uma vida no Paraíso Terreal, como denominava a Ilha.

FONTE: http://moskowilha.blogspot.com.br/2012/04/cine-guajarino-o-cinema-de-mosqueiro.html#links

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Mosqueiro já teve Cinema

sexta-feira, 20 de abril de 2012

NA ROTA DA HISTÓRIA: A ADMINISTRAÇÃO DA ILHA



Desde a época de Freguesia, em que Igreja e Governo Imperial traçavam os destinos da Província do Grão-Pará, a ilha do Mosqueiro vem dependendo das decisões administrativas emanadas de Belém. No princípio, os Presidentes da Província e, depois, os Intendentes Municipais, já nos tempos de Vila e de Distrito, promoviam ações diretas visando ao desenvolvimento do lugar.
Com a riqueza proveniente do ouro branco das seringueiras amazônicas, a Capital do Pará, no final do século XIX e início do XX, conheceu o progresso em seu processo de urbanização e o desenvolvimento artístico-cultural aos moldes europeus. É nesse período que a Ilha recebe a visita dos estrangeiros, vindos para a reconstrução de Belém, os quais aqui difundiram o lazer de sol e praia nos fins-de-semana, tão comum nos países da Europa. Não demorou muito para que a elite belenense adotasse tal costume e começasse a construir belíssimos casarões de praia, cuja arquitetura revela a mistura de estilos de além-mar com características da região. Esse interesse singular motivou os governantes a promoverem melhorias na Ilha, sempre em função dos nossos primeiros turistas ou “veranistas”, como eram chamados.
Sem dúvida, entre os primeiros Intendentes Municipais de Belém, dois nomes se destacam pelos relevantes serviços prestados à Ilha: Alcindo Cacela e seu sucessor Abelardo Leão Conduru. O primeiro protegeu os barrancos da Vila, construindo as escadarias da praia do Bispo, os acessos rampados e um muro de arrimo, que resiste até hoje ao ímpeto das marés; o segundo fundou o bairro do Farol (inspirado no ideal de Zacharias Mártyres), saneando e urbanizando uma área de várzea que assustava a todos pela alta incidência de malária. Outro Intendente Municipal, também admirador e frequentador assíduo da Ilha como os dois citados, merece ser lembrado pelos mosqueirenses: Cypriano Santos, cujo nome batizou a Praça Matriz, pois ali, o administrador de Belém decidiu comemorar o Primeiro Centenário da Adesão do Pará à Independência, no dia 15 de agosto de 1923.
O historiador Augusto Meira Filho, em seu livro Mosqueiro Ilhas e Vilas, assim fala dos primeiros anos do Distrito: “O Mosqueiro, como Distrito da Capital, há muitos anos vem sendo dirigido por um Agente Municipal, de nomeação do Prefeito de Belém. Antes de 1930, essas designações partiam dos Intendentes Municipais e sempre houve interesse político em se fixar na direção da ínsula pessoas gradas vinculadas às condições político-partidárias de cada época. Tempo houve, por exemplo, nas primeiras décadas deste século (séc. XX), que o domínio do partidarismo político no Mosqueiro se evidenciou pelo prestígio de um representante altamente credenciado do Partido Republicano do Pará, na pessoa do Coronel Lourenço Lucidoro Ferreira da Motta. Sua residência centralizava a vida social do Chapéu Virado e dali mesmo dirigia os destinos de seu partido, na função de Presidente da Comissão Executiva do Partido Republicano, no Mosqueiro. Já comentamos em outro tópico desta contribuição sobre a sua bela residência, mais tarde em outras mãos e que acabaria sendo demolida há pouco tempo, para dar margem à edificação do atual Edifício de Apartamentos “Lilian-Lúcia”. Fora o famoso “coronel Loló Motta” figura simpática e ativa, amante do Mosqueiro e muito fez pelo Chapéu Virado de seu tempo.”
Por outro ângulo, o escritor Cândido Marinho Rocha, em seu romance Ilha Capital Vila, retratando os idos de 1931, assim focaliza os primeiros tempos do Distrito: “A população dividia-se em duas partes distintas: os regionais e os veranistas. Aqueles residindo e vivendo na Ilha, de profissão pescadores, carregadores, açougueiros, merceeiros, um que outro operário, além de funcionários municipais. A Sub-Prefeitura era sempre administrada pelo afilhado político do Prefeito de Belém, o Comissário de Polícia era frequentemente um oficial reformado da Brigada Militar do Estado, o vigário nem sempre era um líder, mas quase sempre operoso, engenhoso, ensinando primeiras letras, fazendo teatrinho. A Igreja era pobre, pobre era a paróquia. Que mais podia o padre fazer? Dividia-se alegremente entre as duas espécies da população da Ilha, sem hostilizar a qualquer delas, recebendo dádivas dos veranistas e procurando salvar as almas dos regionais. Veranista é sempre gente de alma já perdida, pensava o pároco. E por isso caprichava na alma dos insulares.”
Com autoridade de subprefeito no início, os Agentes Municipais, a partir de 1930, foram: Carlos Bentes (1930-1942), José Pedro (1942-1943), José Soares da Silva (1943-1945), José Pedro (1945-1947), José Caraciollo ( 1947-1948), José Raimundo Gomes Filho (1948), João Braga (1949), Elmiro Pereira (1950-1951), Cândido Messias (1951-1953), Luiz Xavier de Sousa (1953), João Lopes Braga (1953-1956), Eimar Tavares (1956), Antonio Gomes da Silva (1956), Cândido Messias (1956-1957), Carlos Gomes da Cunha (1957), João Araújo Correia (1958), Carlos Gomes da Cunha (1958-1959), Augusto Nogueira (1959), Álvaro José de Almeida (1960), Duil Ferreira Costa (1960), João Augusto de Oliveira (1960), Carlos Arruda (1960-1961), Almenacés de Oliveira (1961-1962), José Maria dos Santos Raiol (1962), Agnaldo Santos (1962-1964), Luiz Sousa Bentes (1964-1965), Mário Azevedo (1965-1966), Osvaldo Medrado (1966), Carlos Santos (1966), Olívio Chaves (1966-1970), Paulo Pontes e Sousa (1970-1971), Heronildes Gomes Moura (1971-1974), Jacy Gonzaga da Igreja (1974-1984), Raimundo Jorge Aflalo Pereira (1984-1985), José Olívio de Figueiredo Câmara (1985-1987), Carlos Gomes Araújo (1987-1989), Arnaldo Silva Pinheiro 1989-1990), Edson José Levy Gomes (1990-1993), Cléa Patrícia Fernandes e Silva (1993), Maria Diva Palheta Bittencourt (1994-1996), Edson José Levy Gomes (1996), Paulo Sérgio Miranda Uchoa (1997-2000), Getúlio Waldisaney B. Trindade (2000-2004), Pedro Hamilton Nery (2005), Maria da Glória M. de Albuquerque ( 2005-2008), Ivan Santos (2008-2012), Edinei Calixto (2013), Gilberto Nascimento (2013...).
A Agência Distrital do Mosqueiro, que já foi Subprefeitura, perdeu tal status ao ser transformada em Distrito Administrativo no início do atual milênio, ficando a administração da Ilha irremediavelmente presa ao orçamento e decisões das Secretarias Municipais de Belém. Em outras palavras, atualmente a figura do Agente Municipal é meramente política, pois o cargo não lhe dá poder de decisão, bem diferente, por exemplo, da época de um Jacy Gonzaga da Igreja, gestor que chegou a ser considerado o melhor prefeito do Norte-Nordeste, despertando a admiração do povo e a inveja de alguns políticos.
E por falar na administração da Ilha naquela época, conheçamos um relato do historiador Augusto Meira Filho em seu livro Mosqueiro Ilhas e Vilas:
“Dos últimos tempos, podemos destacar a gestão do Engº. Heronildes Moura que, em seu programa de Obras, desenvolveu um trabalho de profundidade, dando ao Mosqueiro melhoramentos dignos de especial menção. Além dos serviços de rotina, sempre ativados e perfeitos, esse ilustre administrador efetuou o trabalho de arrimo na praia do “Porto-Arthur”, salvando, ao mesmo tempo, a beleza do litoral e a rodovia perimetral que ali se situa. Igual empreendimento diz respeito às obras do arrimo da praia do Murubira, cuja conclusão já foi efetuada na gestão Igreja. Na gestão deste último Agente Municipal do Mosqueiro, o Engº. Jacy Gonzaga da Igreja, a Ilha tem estado sob a permanente vigilância de seu gestor. Realizando plano de obras de rotina, paralelamente, efetua obras de profundidade, como o preparo definitivo da praia do Murubira e a próxima que irá resolver velho problema da praia do Ariramba. Esses logradouros são da maior importância na vida do balneário. Também, neste período, sob a responsabilidade do DMER-BL foi construída nova ponte sobre o igarapé do Cajueiro, obra vultosa necessária, imprescindível à circulação litorânea dos veículos que chegam e saem da Ilha para Belém e vice-versa. Mosqueiro tem recebido melhoramentos em todos os setores de sua vida administrativa e social. Melhoram as instalações na Vila, abrem-se novas artérias nos bairros do Chapéu-Virado, do Murubira, no Ariramba, em Carananduba, no Sucurijuquara e avenidas marginais às praias unem, agora, Maraú, Paraíso, Caraoara ou Caruara e as que se seguem na direção da Baía do Sol. Mosqueiro, hoje, dispõe, na Vila, de um belo Hospital (Unidade Mista Hospitalar), construção da gestão Fernando Guilhon (Estado) e Octávio Cascaes (Município) e a assistência médica nos Postos de Saúde de Carananduba e Baía do Sol, com presença diária de médicos e enfermeiros. Ainda na mesma administração, ganhou a Vila sua Estação Rodoviária e apresta-se para receber a segunda fase do Mercado Público, diversas escolas e centros de recreio para escolares. Inaugurou seu Camping nas proximidades do Chapéu-Virado e prepara-se para receber um grande investimento, na região do Natal do Murubira, as notáveis instalações da “Associação dos Servidores Civis do Brasil” (que inicia suas atividades conforme programação já estabelecida). Para esse importante empreendimento, foi lançada a sua pedra fundamental em 29 de outubro de 1977.
Também as avenidas Beira-Mar do Farol e Chapéu Virado receberam completa remodelação, seguidas pelas de Porto Arthur e do Murubira.
Depois do advento da rodovia Belém-Mosqueiro, a Ilha ganhou as instalações telefônicas da Telepará, os serviços de abastecimento d’água da Cosampa nas praias e na Vila, pelo SESP uma pré-urbanização interna nos termos da Lei nº 6.362 de 3 de maio de 1967, que estabeleceu normas técnicas, para construções e urbanização na Ilha do Mosqueiro e que vem sendo respeitada pelo poder público e pelos interessados, construtores e proprietários, na Ilha.
As praças antigas e tradicionais têm recebido permanente conservação e preservação e as vias de circulação de viaturas em toda a faixa de transporte no seu interior vêm sendo constantemente melhoradas, alargadas, pavimentadas e tornadas em condições especiais de uso e funcionamento.
A pavimentação asfáltica no Mosqueiro teve seu início na gestão do Prefeito Moura Carvalho, em 1963. A iniciativa deve-se ao Secretário de Obras, Engº. Carepa que determinou e orientou a execução desses serviços, entregando-os, nesse tempo, aos técnicos do DMER-BL Sílvio Aflalo e José Machado. Desde então, o velho sistema de empiçarramento simples seria substituído pela pintura de asfalto, impermeabilizando as pistas e permitindo um razoável tratamento superficial de quase todas as principais artérias do Mosqueiro. Hoje, tais serviços alcançam a maioria da rede de tráfego da Ilha, tendo muitas ruas, avenidas e estradas suplementares já recebido o tratamento em “sand-asphalt”, proporcionando uma solução ideal ao programa de pavimentação no Mosqueiro. Foi depois daquele feito de 1963, com o asfalto-pintura da Vila ao Porto-Arthur, que a rodovia BL-17 (parte na Ilha da Belém-Mosqueiro) receberia, igualmente, o mesmo tipo de melhoramento, só mais tarde substituído pelo atual, de primeira classe e efetuado para atender aos reclamos finais das obras da Ponte que definiu, em caráter permanente, os destinos da comunicabilidade rodoviária entre a Capital e a grande Ilha Balneária do Mosqueiro, obra majestosa inaugurada em janeiro de 1976 pelo Presidente Ernesto Geisel.
O preparo das diversas modalidades de pavimentação no Mosqueiro obedeceu a Planos intensivos do DMER-BL que, em última análise, é que dirige e comanda o futuro da Ilha. Hoje, o Mosqueiro é uma dependência administrativa e técnica do Organismo Rodoviário Municipal. Seu próprio Agente Municipal é o Chefe de uma Divisão referente àquelas áreas subordinadas diretamente à chefia geral do Departamento Municipal de Estradas de Rodagem. No território do Mosqueiro reside a maior faixa rodoviária do município de Belém. Dadas essas razões, muito natural e lógico que as velhas dependências políticas do Mosqueiro passassem à supervisão do DMER-BL que não só planifica e executa como também dirige os destinos do maior balneário paraense...”
Esse relato de Augusto Meira Filho é um retrato perfeito do Mosqueiro há quase quatro décadas. Nos anos que se seguiram, a população da Ilha cresceu aproximadamente seis vezes e a ocupação de seu território foi gigantesca e desordenada, às vezes motivada pela especulação imobiliária ou por uma pseudo reforma agrária, jamais vista no país. É óbvio que os problemas iriam aumentar consideravelmente. Não entendemos, portanto, o modelo de administração atual, pois a Ilha é vista como um bairro de Belém, um bairro distante constituído de outros bairros e separado por outros municípios: ilha geográfica, ilha administrativa, que não é Comarca da Capital! Daí o descrédito do povo!
Restam-nos as palavras de Meira, esse eterno apaixonado pela Ilha:
“As lutas são tanto maiores quanto as fazemos vibrar em nosso entusiasmo de pioneiros, exatamente, quando o povo começa a acreditar no governo, no empreendimento público, vendo-o crescer a olhos vistos. Quanto de nossa crença foi desgastado naqueles momentos de indagação e de esperança! Mas a vitória aí está patente e irreversível.”

FONTE: MEIRA FILHO, Augusto. “Mosqueiro Ilhas e Vilas”- ED. GRAFISA, 1978- pp. 104, 105, 106 e 109.
FONTE: MARINHO ROCHA, Cândido. “Ilha Capital Vila”- GRÁFICA FALANGOLA EDITORA. Belém-Pa, 1973- p. 32.
FONTE: Arquivo pessoal de Manoel Brígido dos Santos
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