segunda-feira, 16 de abril de 2012

JANELAS DO TEMPO: O PORTA-LARGA

Autor: Cândido Marinho Rocha

“Manuel Porta-Larga era um tranquilo lusitano, proprietário, há muitos anos, do pequeno Bar com Restaurante, localizado em loja de uma só porta, bastante larga. Pelo que tornou-se o conhecido e estimado Senhor Manuel Porta-Larga. O estabelecimento era o que de mais calmo havia na Vila. Bem localizado, à praça Matriz, procurado por pessoas de categoria, notadamente senhoras e senhores idosos, alguns dos quais encomendavam refeições, que Manuel mandava fazer pela mulher, exímia cozinheira. Fora, entre o balcão e a porta da rua, duas bancas de ferro, nunca ocupadas por beberrões ruidosos. Tudo ali era calmo em torno de Manuel Porta-Larga. Era tão cientificamente calmo que nunca ou quase nunca sorria, para não exibir emoções. Perguntado certa vez por que não ria, respondeu:

-- Jesus Cristo não ria.

Outro detalhe: não vendia fiado. Quem não gostasse, que lá não fosse. O movimento por isso era reduzido. Poucos clientes lhe serviam. Uns porque eram barulhentos, outros porque eram caloteiros, outros porque vinham em magotes, além dos que não pagavam com dinheiro trocado. Nem de conversa Manuel Porta-Larga era amigo. Bom Dia, Boa Tarde, Boa Noite estamos conversados. Seu comércio fechava rigorosamente às 20 horas. A ninguém mais atendia após o encerramento do serviço. Nem ao rei nem à rainha. Sentava-se à porta, mulher ao lado, nos silêncios, compreensões. Passavam pessoas. Boa-noite, seu Manuel. Respostas: Huuum, huuuuumm.

Era muito pobre por tudo isso. Felicidade colocava par na sua vidavida. A riqueza seria para ele aflição e ruína. Nada lhe faltava. Casa, comida, mulher, roupa lavada, ares mosqueirenses, respeito, crédito. Mas, paradoxalmente só comprava a vista. Hoje, se pretendesse utilizar o serviço do crediário, seria impossível. Não dispunha de qualquer fonte de informações quanto à regularidade de pagamento dos seus compromissos, pois só os tinha com a própria mulher. Porta-Larga aos sessenta anos de idade era um lago cercado de silêncio por todos os lados.”

“Manuel era um homem de estatura mediana, magro, rosto octogonal, braços longos, pernas curtas, livre de bigode e barba, dentes amarelos, cabelos ralos, raros. Era feio.”

“Manuel Porta-Larga era assim parecido com uma esfinge de carne sem ser viva. Era assim como um estado intermediário entre cadavérico e comatoso.”

(FONTE: MARINHO ROCHA, Cândido. “Ilha Capital Vila”- GRÁFICA FALANGOLA EDITORA. Belém-Pa, 1973- pp. 167, 168 e 169)

domingo, 15 de abril de 2012

CANTANDO A ILHA: NIHIL

Autor: Prof. Alcir Rodrigues

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PRAÇA CIPRIANO SANTOS, CHAMADA DE MATRIZ, DÉCADA DE 1960. Fonte: PENTEADO, Antonio Rocha. Belém – estudo de Geografia Urbana. Belém: UFPA, 1968, p. 385, v 1.

A vítrea garrafa, em vez da cachaça,

Vomitou-me umas doses de remorso.

Mesmo assim as bebi – só de pirraça!

Ao meu redor, meditam em seu ócio,

 

Soturnas sombras nesta bela praça.

Pessimistamente, descansam meus ossos

Doídos, carcomidos pela traça

Do álcool e do fumo. São destroços

 

De minh’alma, da verdade entediada.

Estas mangueiras, estes companheiros,

Esta cachaça, esta lua no céu

 

(Pairando triste nesta madrugada),

São fiéis testemunhos derradeiros

Do fim da linha diluída em fel…

 

 

PS: Na última postagem feita por mim, fiz referência direta à praça Cipriano Santos. Neste momento, o poema diretamente ligado a esta praça serve, também, de pretexto para eu postar essa imagem dela, na década de sessenta. Salvo engano, é inédita na Internet. Devemos agradecer ao autor do livro, Antonio Rocha Penteado. Obrigado mesmo!

FONTE: http://moskowilha.blogspot.com.br/2012/03/nihil.html#links

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A ILHA CONTA SEUS CAUSOS: O MORCEGO GIGANTE

 

Herança de nossos ancestrais morobiras? Manifestações do espírito amazônico latente em cada pedaço de mata, igarapé, rio ou beirada de praia? Produtos do imaginário criativo de nossos ribeirinhos? Quem sabe dizer? O certo é que as histórias fantásticas da ilha do Mosqueiro sempre existiram e existirão sempre, pois – assim parece – aqui se encontra um misterioso portal entre a ficção e a realidade.

Já o grande escritor Cândido Marinho Rocha, em seu romance Ilha Capital Vila, ao contar a história do jovem adormecido nos idos de 1931, assim dissera: “A vila porejava versões, as mais incríveis. Mundiado, para todos os efeitos, estava ele, o jovem adormecido. Mundrunga havia sido colada ao rapaz. Mas, quem teria sido? Mãe de qualquer menina lá dos confins de Carananduba? Trabalho de Pajé pago por moça prejudicada? Bebida encantada? Boto ou entidade das praias? Teria sido alguma cobra grande encantada que virava princesa e o assustara? Ou carreira de medo de alguém ultrajado pelo jovem adormecido? Matinta Pereira ou porca de duas cabeças que apareciam no Largo da Matriz a desoras?”.

Wilson Amanajás, em seu livro Mosqueiro, afirma que “... existem contos sobre a casa das visagens, a Ilha dos Pretos Matintapereira, Cachorro-Fantasma, a Luzerna da Estrada, a Porca Lobisomem, o Encantamento do Boto e as Almas do Outro Mundo.”

Até o emérito pesquisador e historiador Eduardo Brandão, sem dúvida um apaixonado pela Ilha, rendera-se ao fascínio desse mundo encantado, produzindo poética obra literária ricamente ilustrada.

Quanto a mim, só posso repetir o que disse em meu livro sobre o assunto:

“Parece que os entes misteriosos e os seres sobrenaturais que vagavam dentro da noite ficaram presos no passado.

Entretanto, esses espíritos errantes ainda existem. Espreitando por trás das seculares rochas das praias, rondando os antigos casarões, emergindo dos rios e igarapés, movendo-se por entre as árvores, surgem inesperadamente diante do olhar estupefato daqueles que, na solidão, ousam penetrar em seus domínios, tentando descobrir os mistérios da Ilha.”

E foi no mês de março que, ao visitarmos o blog MOSQUEIRENSE de José Carlos Oliveira, encontramos a surpreendente matéria assinada por Sérgio Franco e postada por JKCAMPOS sobre o morcego gigante capturado nas matas da Ilha.

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Falso ET era na verdade um morcego gigante

 

“Foi capturado na madrugada desta quarta-feira o famoso ET que assustou moradores de Mosqueiro e Colares na década de 70. Trata-se de uma espécie rara de morcegos gigantes da Indonésia, que fora do habitat natural desenvolveu-se mais do que os da sua espécie. Com essa descoberta, cai por terra a estória contada pelos moradores dessas ilhas, que disseram terem sido visitados por ETs que chupavam o sangue dos mesmos e também dos animais que criavam.

Sergio Franco

Postado por JKCAMPOS ”

FONTE: http://mosqueirense.blogspot.com.br/2012/03/morcego-capturado-em-mosqueiro-qual-sua.html

Mais surpreendente que a foto foi a comparação feita do tal morcego com o famoso Chupa-Chupa dos anos 70. Acredito que, por mais ingênuos que fossem os habitantes das ilhas, naquela época, jamais confundiriam esse animal com OVNIs ou seres extraterrestres, mesmo porque existem relatos com descrições nada semelhantes.

Melhor comparação faríamos com a ignota figura descrita no “causo” relatado neste blog, em antiga postagem, com o título O homem que foi malinado pela Matinta:

“Quando a minha mãe olhou para cima viu que com a lua estava claro, mas a vista dela escureceu; ela viu algo que tinha asas compridas, cabelos brancos na cara, com altura mais ou menos de dois metros, uma calça encardida, a blusa velha e unhas grandes. A minha mãe a descreveu como um anjo, mas um anjo do mal que ia voando lentamente e passou por cima da minha casa.”

PESQUISE NESTE BLOG:

Chupa-Chupa no Itapiapanema

Chupa-Chupa na Baía do Sol

O homem que foi malinado pela Matinta

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A ILHA CONTA SEUS CAUSOS: O JOVEM ADORMECIDO

 

Autor: Cândido Marinho Rocha

 

“No outro dia pela manhã, quando Rosamor chegou, o jovem não estava mais adormecido. Muito pálido, ainda na cama, começava a olhar ao redor, nitidamente assustado. Temendo algo que não estava ali. À tarde, Anacibe reanimou-se, bebeu caldo quente, sentou, conversou generalidades. Perguntou quanto tempo estivera adormecido, mas não acreditou senão quando olhou e viu a folhinha. Estava marcando quarta-feira e o “negócio” acontecera no sábado à noite.

-- Sim, senhor meu Deus, do que escapei!

E, alto, para todos ouvirem:

-- Quem me curou?

-- O Mário da Sétima Rua.

-- É verdade. E eu, que tanto depreciava dele.

-- Você não se lembra que ele curou também Mainha?

-- Mas Mainha estava doente, tinha febre. Eu estava morto.

-- Você sentiu-se morto?

-- Sim, mãe, morto, com um medo sem fim de voltar à vida.

-- Eu vi você dormitando, apenas soluçando, choramingando, pálido e sem ânimo. Seu pai disse que era peraltice e malandrice. Peralvilhices. E que não acreditava na sua doença. Tinha razão?

-- Tinha, eu não estive doente. Estive com medo, mãe, um pavor pânico.

-- Qual foi o motivo, meu filho?

Anacibe ficou calado. Mas em seguida disse:

-- Vou contar tudo. Foi assim:

No “sereno” da festa da Rosamor, vi uma bela morena que me olhava com ternura. Ora, eu estava mesmo procurando uma nova aventura. Como sabes, conheço todas as moças do Mosqueiro, mas aquela eu nunca vira. Estava bem vestidinha e cheirava a priprioca. Cheguei perto dela e dei boa noite. Ela respondeu nas faceirices, dengosamente. Vi que era possível a aventura. Fiquei ali ao lado, conversando. Perguntei se ia à festa? Disse que não. Que já ia pra casa. É longe? Indaguei. Não é perto nem longe. Quer ir comigo? Sim, foi sua alegre resposta. E seguimos de mãos dadas, pelo escuro das ruas. No meio do caminho, quis beijá-la.

-- Não, repetiu, na rua não. Vamos pra casa.

Fiquei intrigado, mas segui adiante. Depois de mais alguns passos, tentei de novo a abordagem.

-- Não, repetiu, na rua não. Em casa é melhor.

Está ouvindo, mãe?

-- Já estávamos na Quinta Rua, cada vez mais escuro e deserto e assim mesmo confiava na acolhida em casa da moça. E enlaçados já, caminhávamos.

Nessa altura, o jovem ficou silencioso por bastante tempo. Narração interrompida, a mãe também silenciosa. O moço em visões.

-- Deixe, filho, descanse. Depois você continua.

-- Não, tenho de acabar. Preciso dizer a alguém o que me aconteceu.

E assim falou:

-- Ao chegarmos à Sexta Rua, casas já sumindo, só capinzal e chão acidentado, quis recuar, mas a moça não concordou.

-- Já estamos pertinho, falou, voz macia e meiga. Vamos em frente.

-- Para não parecer medroso, aceitei o convite e continuei. Foi quando me pareceu que eu seria assaltado, maltratado e roubado. E disse a ela: “Olha, não deves fazer com que eu seja assaltado pelos teus companheiros porque estou armado e será pior para eles todos”. Ela parou, sorriu e me abraçou dizendo querido, querido, querido. Pelo que amoleci e fui adiante. Ao chegarmos na Sétima Rua, em cuja esquina fica o cemitério, as circunstâncias me pareceram normais, sem possibilidades de encontros perniciosos pois tudo era calma e silêncio. A noite escura, as estrelas belíssimas lá em cima. O sereno caía, havia umidade, um certo friozinho nas mãos. Um braço meu no grande oblíquo da garota, outro no grande peitoral. Uma felicidade generalizada nos nervos. Tudo era paz, promessas de amor. Sorria já do meu espanto impróprio. Ela mantinha suas mãos ocupadas também: uma no meu grande dorsal outra no bíceps. Era tudo uma serenidade.

-- Assim, mãe, continuou o moço, ia eu sendo levado quase sem saber para onde. Já nem pensava mais na casa dela, nem nada. Nada de pensamentos sujos. Tudo para mim era então limpo e romântico. Após estarmos um instante parados, abraçados, é que notei. Estávamos encostados ao portão do cemitério que, como sabes, permanece sempre aberto.

Então ela falou assim: “Entra, querido, entra, vem comigo, aqui é minha casa. Vês aquela pedra branca, ali é o meu leito. Vem comigo, querido”. E me segurava as duas mãos e me puxava para dentro daquela escuridão terrível. Pensei a princípio que fosse uma brincadeira, mas nada pude articular. Recusei-me a segui-la. Foi quando se desfez numa gargalhada e eu então compreendi que devia ser um fantasma. Apavorado, safei-me das suas mãos e corri até perder o fôlego. Não sei onde caí morto de medo e de cansaço. Foi assim que me encontraram, mãe?

-- Sim, filho. Você estava meio morto mesmo.”

(FONTE: MARINHO ROCHA, Cândido. “Ilha Capital Vila”- GRÁFICA FALANGOLA EDITORA. Belém-Pa, 1973- pp. 95, 96 e 97)

MOSQUEIRANDO: Conforme narrativa do autor, o fato se passa na noite de São João de 1931, época em que o bairro do Maracajá praticamente não existia, mas falava-se no Umarizal, nos limites do atual cemitério. Sendo assim, há um engano na localização do cenário, pois o referido cemitério fica situado entre a Quinta e Sexta Ruas e não na esquina da Sétima.

terça-feira, 27 de março de 2012

NA ROTA DA HISTÓRIA: PADRE MANUEL ANTÔNIO RAIOL

Autor: Augusto Meira Filho

Colaborando na pesquisa de assuntos de interesse da Ilha do Mosqueiro, o professor Donato Mello Junior ofereceu-nos a contribuição que segue, relativa à presença do Padre Manuel Antônio Raiol na Ilha do Mosqueiro, sobre o qual nos ocupamos no texto deste trabalho. Eis a valiosa informação levantada pelo ilustre professor, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro:

                       PADRE MANUEL ANTÔNIO RAIOL

           Centenário da morte do primeiro pároco do Mosqueiro

                                                                                       Donato Mello Junior

                                                              Prof. Da UFRJ – Membro da IHGB

                          Dedicado a Augusto Meira Filho

Na deliciosa ilha do Mosqueiro, uma rua perpetua alguém: Padre Raiol. Raiol é, aliás, o nome de uma família cujo tronco se enraizou no Grão Pará do século XVIII e se ramificou em numerosa descendência (1), com algumas personalidades como a do ilustre historiador Domingos Antônio Raiol.

Quem foi o Padre Raiol, hoje apenas lembrado nessa rua? Seu nome completo, diga-se a propósito, era praticamente desconhecido até há pouco.

Manuel Antônio Raiol foi o nome desse padre que, por dez anos, pastoreou suas ovelhas mosqueirenses até seu falecimento em princípios de julho de 1878, portanto, há cem anos.

Anotáramos, de passagem, seu nome entre múltiplos outros, há alguns anos, ao pesquisarmos no Arquivo Nacional fatos ligados ao bispo D. Antônio de Macedo Costa, no fundo pouco conhecido, mas riquíssimo para a história do clero no Brasil, que é a Coleção Eclesiástica, formada no século XIX (2). Como se sabe, na nossa organização imperial, a Igreja era diretamente ligada ao Estado, no regime do padroado, sistema que, às vezes, ocasionou sérios problemas administrativos e religiosos culminados na famosa Questão Religiosa.

No Império, o Bispo indicava ao Imperador nomes para a escolha de párocos e membros de Cabido, cabendo a este escolher, por decreto, um dos candidatos constantes da lista episcopal.

Na rotina de D. Macedo Costa, ele não só indicava como opinava sobre os opositores e apontava quem deveria merecer o decreto de apresentação..., o que chegou a ser objeto de restrição na Secretaria do Ministério do Império, que defendia o direito de livre escolha por parte do Imperador (3). Compreende-se, no entanto, o interesse episcopal no indicar ao Soberano seu candidato pelo fato de ele depois ficar sob suas ordens.

                Padre Manuel Antônio Raiol candidato a um

                            Benefício da Catedral de Belém

Na Coleção Eclesiástica – Diocese do Pará, da Seção do Poder Executivo do Arquivo Nacional, ano 1848, encontramos 17 documentos originais que se relacionam com o processo de apresentação do padre Raiol a um Benefício na Catedral de Belém e que nos permitiram a reconstituição histórica a seguir.

Em 7 de março de 1848, o bispo D. José de Morais Torres publicou um edital para preenchimento de um Benefício na Sé de Belém, em virtude da vaga deixada pelo acesso do Reverendo Antônio Feliciano de Sousa ao Canonicato (4). A esse Benefício candidatou-se o nosso focalizado Padre Manuel Antônio Raiol, nome que lemos no seu próprio requerimento autografado e dirigido ao Vigário-Geral da Diocese, nestes termos:

“O Pe. Manuel Antônio Raiol, vigário interino da Freguesia de Colares contestando-lhe que se acha vago na Catedral um Benefício, por acesso do seu último possuidor o Rdo. Antônio Feliciano de Sousa a um Canonicato, querendo fazer oposição ao mesmo roga a V.S. se digne aceitar a sua oposição mandando assinar termos na Câmara Eclesiástica e que se lhe passe por Certidão em seguimento desta o mesmo termo, de que E.R.M.” (5)

Lê-se a seguir, o despacho: “Como requer – Pará, 7 de março de 1848”. E, após, a certidão (6):

“Certifico que afixei o Edital retro no dia sete de março do corrente ano de mil oitocentos e quarenta e oito na porta da Igreja Catedral, onde esteve afixado os sessenta dias na forma do Alvará das Faculdades dentro dos quais se opôs o Rdo. Manuel Antônio Raiol e tirei no dia seis de maio por ter fixado o concurso no dia cinco. O referido é verdadeiro em fé do que me assino. Pará, 6 de maio de 1848. O Cônego Antônio José de Sousa Loureiro.”

No Livro 1º. De termos de oposição ou dignidades, canonicatos, Benefícios da Catedral e igrejas do Bispo, a fls. 50 v. foi lançado o “Termo de oposição que assina o Reverendo Manuel Antônio Raiol, vigário interino da igreja paroquial de Colares de um Benefício na Catedral” (7).

Logo depois, o Padre M. A. Raiol, em outro requerimento dirigido a D. José Torres... “oferece seus documentos inclusos a consideração de V. Excia. Revma. E em virtude dos quais roga a V. Exa. Se digne propô-lo a S. M. afim de alcançar do mesmo Senhor sua carta de apresentação de que E.R.M.” (8)

Nesses documentos exigidos pelo processo, colhemos vários dados para a sua biografia. Entre os papéis apresentados consta:

a) – uma certidão do Vigário-Geral declarando que o suplicante fora nomeado Vigário interino da “igreja paroquial de Nossa Senhora do Rosário de Colares por provisão do Bispo D. Romualdo de Sousa Coelho de 20 de dezembro de 1843 e que... nela tem exercido as funções paroquiais com aptidão, zelo e satisfação dos seus paroquianos até o presente” (Pará, 13 de abril de 1848 (9);

b) – certidões do Juízo Cível e do Eclesiástico, de 28 de abril de 1848, nada constando contra o requerente (10) e recibos da Recebedoria das Rendas Internas;

c) – certidão do Cabido, do tempo que serviu de segundo sacristã da Catedral de Belém, na qual se lê que no Livro 8º. Das Distribuições dos Reverendos Ministros e mais empregados desta Catedral, consta que o suplicante... “serviu de segundo sacrista desde 12 de outubro de 1839 até 26 de junho de 1840” (11);

d) – habilitação de Genere de 19 de agosto de 1843 para ser promovido ao estado eclesiástico em que consta que:

“Manuel Antônio da Silva Raiol natural e batizado na Freguesia de Santana da Campina desta cidade, filho legítimo de Joaquim Antônio Raiol e de Rosa Lina da Incarnação, naturais desta cidade, neto pela parte paterna de Maria Juliana, natural desta cidade, avô incógnito, e pela parte materna de Teodoro Vieira, natural de Lisboa e de Isabel Maria Incarnação natural desta cidade...” (12);

e) – certidão de batismo tirada do Livro 10º. do Registro de Batismo da Freguesia de Santana da Campina, folha 808, em que se lê ter sido batizado em 28 de setembro de 1817, tendo como padrinho Jerônimo Antônio Costa e madrinha Nossa Senhora (... “e tocou com a coroa de Nossa Senhora José dos Passos Silva”, segundo os termos);

f) – certidão de 3 de dezembro de 1847 de sua Carta de Ordens lançada no Livro 21 do Registro de Provisões, folha 26 v. , no Maranhão, em 2 de outubro de 1844 (14);

g) – atestado do Bispo D. José Afonso Torres com sua filiação, o qual diz que M. A. Raiol... “tem prestado serviços à Igreja” e que... “sua conduta é sem nota”, documento esse datado de 28 de julho de 1848 (15).

Baseado na documentação, D. José dirigiu-se ao Ministro dos Negócios da Justiça, Antônio Manuel de Campos Melo, em ofício assim redigido (16):

“Tenho a honra de levar à Augusta Presença de S.M.I. o Sr. D. Pedro 2º. por intermédio de V.Excia. a proposta para o Benefício desta Sé e Catedral do Pará na conformidade do Alvará das Faculdades de 14 de abril de 1781, e leis posteriores. Vagou aquele lugar por acesso do seu último possuidor o Padre Antônio Feliciano de Sousa a um Canonicato, e logo depois se afixarem os editais por sessenta dias nas portas da Catedral e Câmara Eclesiástica desta cidade segundo a lei e costume convidando a todos os aspirantes para o concurso nas formas legais. Aberto o concurso compareceu e se habilitou o padre Manuel Antônio Raiol. Proponho pois o mesmo padre para o referido Benefício único que a ele se opôs. Este padre é natural desta cidade, e batizado na Freguesia de Santana do bairro da Campina aos 28 de setembro de 1817. Foi canonicamente ordenado de presbítero em 1º. de outubro de 1843. Entrou para o serviço da Catedral como 2º. Sacrista em 12 de outubro de 1839, serviu este emprego até 26 de junho de 1840, e em 20 de dezembro de 1843 passou a paroquiar a igreja de Colares, onde ora assiste, exercendo as funções paroquiais com aptidão, honra e zelo. Mostra estar isento de crimes em ambos os juízos. Dos documentos juntos consta mais circunstancialmente o que venho de expor. Por este motivo me parece que este padre se fez digno do lugar que aspira. S.M.I., porém, resolverá o que for justo.

Deus guarde a V.Excia. Palácio episcopal do Pará, 28 de julho de 1848.”

O Ministro foi informado ainda nesse ofício de que a documentação estava em termos, apesar de o mesmo ter sido endereçado ao Ministro e não em forma de Consulta ao Imperador, o que nãom impediu que o processo prosseguisse.

D. Pedro II, pouco depois, assinou o decreto de apresentação, neste teor (17):

“Conformando-se com a proposta do Reverendo Bispo do Pará, Hei por bem apresentar o Padre Manuel Antônio Raiol no Benefício vago na respectiva Catedral. Antônio Manuel de Campos Melo, do meu Conselho, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Justiça o tenha entendido e faça executar. Palácio do Rio de Janeiro, em vinte e dois de setembro de mil oitocentos e quarenta e oito, vigésimo sétimo da Independência e do Império.”

              MANUEL ANTÔNIO RAIOL desiste do Benefício

Apesar de ter sido apresentado, o padre Raiol resolveu, logo a seguir, desistir do Benefício da Catedral. No mesmo fundo do Arquivo Nacional, achamos o seu requerimento autógrafo dirigido ao bispo D. José, nestes termos (18):

“O Padre Manuel Antônio Raiol, vigário interino da Freguesia de Colares, tendo feito oposição de um Benefício da Catedral, e sendo apresentado no mesmo por S.M. pretende renunciá-lo em consequência das vantagens que tem como vigário.

Digne-se V. Rma. aceitar sua renúncia e mandar lavrar o termo na Câmara Eclesiástica de que E.R.M.”

A ele, seguem-se mais três documentos.

O Bispo despachou em 5 de janeiro de 1849 mandando assinar o termo. No próprio requerimento consta o termo de desistência assinado pelo padre Raiol, no mesmo dia, lavrado que foi pelo escrivão Antônio José de Sousa Loureiro.

Sendo necessária a confirmação imperial, o padre Raiol, por seu procurador o Cônego Bernardino Henrique Diniz, requereu ao Bispo no sentido de que desse conhecimento ao Imperador (19) da:

... “desistência que o suplicante fez do mencionado Benefício, pois ele é simples, puro e absoluto, sem reserva alguma,” esclarecendo, logo após, que era... “em consequência das vantagens que tem como vigário”. Assinou-a no mesmo dia 5.

Que vantagens “que tem como vigário” seriam essas numa povoação pobre como Colares? Difícil supô-las, e não temos uma explicação para essas “vantagens”.

D. José Torres já a 13 de janeiro de 1849 encaminhava a renúncia ao Imperador (20), que houve por bem assinar o decreto de 2 de março confirmando a desistência, que foi referendada pelo Ministro Eusébio de Queirós Matoso Câmara (21).

Sonhou o Padre Raiol com o Benefício em 7 de março de 1848 e menos de um ano depois confirmou-se a sua desistência levado por razões outras que não as escritas.

Não eram incomuns as desistências no Cabido de Belém. No ano de 1849, houve duas: as dos padres Antônio Leonardo Pereira Vulcão e João Estevão da Cunha e Oliveira, a primeira confirmada em 22 de maio e a segunda em 28 de julho (22).

No mesmo ano, houve quatro novas apresentações pelo Imperador: padres José Veríssimo Alves, João Antônio de Faria, Ertulano Alexandrino Gonçalves Baião e Francisco de Paula Castilho, os dois primeiros a 28 de julho, o terceiro em 27 de novembro e o último a 15 de dezembro (23). Essas confirmações de renúncias e as apresentações envolveram não poucos documentos, hoje custodiados na mesma Coleção Eclesiástica do Arquivo Nacional, fonte primária para conhecimento da história eclesiástica paraense.

                     Padre Raiol, vigário do Mosqueiro

Quando vice-presidente da Província do Pará, o Cônego Manuel José de Siqueira Mendes sancionou uma lei da Assembleia Legislativa Provincial que recebeu o nº. 563, de 10 de outubro de 1868, cuja ementa reza: “Cria a freguesia do Mosqueiro e extingue a de Joanes” (24). Em seu artigo 1º. Lemos: “Fica criada na povoação do Mosqueiro uma freguesia sob a invocação de Nossa Senhora do Ó” e no 2º., que... “seus limites civil e eclesiástico serão: pelo lado Sul o furo do Pinheiro em direção do igarapé Fundão, abaixo do igarapé Paricatuba, até a baía do Sol, e pelo Norte a margem esquerda do rio Jauá”. A ela ficaram pertencentes as ilhas Cotijuba, Paquetá, Jutuba e Tatuoca.

Havia na povoação a igreja da irmandade de Nossa Senhora do Ó que foi indicada para matriz provisória e mandada avaliar para devida indenização à irmandade, promovendo-se a sua conclusão pelo governo da província. Igualmente foi mandada avaliar a obra do cemitério da mesma irmandade, posteriormente indenizada.

D. Macedo Costa era então o bispo do Pará e nessa qualidade escolheu para vigário da nova freguesia o padre Manuel Antônio Raiol, que aceitou e nela se radicou. Tinha o padre, então, seus cinquenta e um anos.

Foi, assim, o Padre Raiol o primeiro vigário do Mosqueiro.

                       Padre Raiol cobra suas côngruas

Nem o Presidente da Província, nem o Bispo comunicaram à Secretaria do Ministério do Império a criação da nova Freguesia, nem o seu novo vigário.

Ocasionou isso a não-existência na Tesouraria da Fazenda Provincial de verba para o pagamento da nova côngrua.

O Padre Raiol fora designado vigário por D. Macedo Costa em portaria de 2 de abril de 1869 tomando posse a 23.

Nosso pobre padre Raiol nada recebendo recorreu ao Imperador a 1º. de setembro de 1869 pleiteando... “a graça de determinar pelo Ministério competente seja autorizada a despesa necessária para pagamento do suplicante...”

Apresentou, depois, uma petição ao Bispo, em data de 6 de setembro, para que atestasse... “ter residido e cumprido com os deveres de seu ministério desde o dia vinte e três de abril em que tomou posse daquela Freguesia até o fim do mês de julho deste ano”... D. Macedo despachou: “Atestamos. Paço episcopal, 14 de setembro de 1869.”

No requerimento ao Imperador lê-se uma informação da Secretaria do Governo Provincial na qual se declara seu direito às côngruas... “as quais tem deixado de receber por não haver crédito para esse pagamento nos respectivos orçamentos”... e a seguir opina... “parece está nos casos de poder merecer a graça que pede”. Isso em 7 de outubro de 1869.

Na Secretaria do Ministério do Império, o requerimento teve uma informação de José Vicente Jorge, datada de 21 de outubro, que assim escreveu: “ O aviso nº. 35 de 24 de janeiro de 1865 expedido pelo Ministério do Império determina”... “que para o pagamento das côngruas das freguesias novas é necessário que a despesa esteja compreendida no orçamento ou seja competentemente autorizada.” “A de que se trata não está contemplada nos orçamentos 1868/69 e 1869/70. Noto no presente caso ser estranho que o vigário de uma freguesia novamente criada requeira o pagamento de suas côngruas, quando ao Governo Imperial não se deu conta, por comunicação do Bispo Diocesano ou do Presidente da Província, da criação e instituição canônica de semelhante freguesia”...

Numa outra informação também de 21 de outubro lê-se: “Importa a côngrua no período decorrido de 23 de abril a 30 de junho de 1869, na razão de 400$000 anuais, em 75$554; pertencendo esta despesa ao exercício de 1868/69, no de 1869/70 em 400$000. 5ª. Seção, 21/10/69 – Midosi”.

O despacho ministerial foi o seguinte:

“Autorizo o pagamento. Recomende-se ao Presidente que em caso semelhante faça o Governo a devida participação e dizer à Tesouraria que não se demore em solicitar o crédito preciso. Faço ver ao Bispo que deve dar parte ao Governo da instituição canônica das novas paróquias para serem os respectivos párocos contemplados com a côngrua.”

Contornando o problema, foram feitos pelo Ministro avisos à Fazenda, à Província e ao Bispo em 28 de outubro de 1869.

A burocracia imperial resolveu, pois, o “caso” e a sua documentação encontramos no Arquivo Nacional (25).

Um Benefício do qual desistiu logo e o não cumprimento de uma comunicação oficial devida deram origem a uma papelada hoje de grande utilidade e valor histórico. Caso, aliás, comum.

                    Padre Raiol na Questão Religiosa

Fora dessa papelada desconhecida acumulada pela burocracia ministerial, encontramos o nome de Manuel Antônio Raiol em dois documentos belenenses publicados por D. Lustosa ao biografar D. Macedo Costa (26).

Após a prisão de D. Macedo Costa, o Governo Imperial tentou arrancar do seu substituto no governo diocesano, cônego Sebastião Borges de Castilho, o interdito das irmandades suspensas, ao qual ele se opôs apoiado pelo clero paraense.

Reunira-se em Assembleia Geral o clero do Pará. Em dois documentos dessa reunião, temos o nome do Padre Raiol: numa mensagem ao Papa Pio IX, em 3 de novembro de 1874, seu nome aparece em 18º. Lugar e, no dia seguinte, num “protesto”, em 16º. É desse documento que transcrevemos o trecho seguinte:

“O clero paraense protesta contra esse ato de violência prepotente e audaz usurpação da autonomia e independência da Igreja e declara alto e bom som que não se manchará com o crime de apostasia desrespeitando os interditos e suspensões canonicamente impostos pelo digno ilustrado Bispo desta diocese.”

                           Falecimento do padre Raiol

Pesquisando a questão nazarena de 1878, um dos resquícios da Questão Religiosa em Belém do Pará, encontramos, por acaso, em “A Boa Nova”, a notícia do falecimento do Padre Raiol, publicada em sua edição de 17 de julho desse ano, p. 2, nestes termos:

“Falecimento.

Faleceu o Rvmo. Padre Raiol, vigário do Mosqueiro, depois de longa enfermidade. Recebeu todos os sacramentos dando o último alento nos mais edificantes sentimentos de piedade. Foi mais um claro aberto nas fileiras do ilustrado clero paraense. Deus terá dado a bem-aventurança ao Padre Raiol, todavia não cessaremos de sufragar sua alma.”

Alguns meses antes seu nome aparecera como notícia no mesmo jornal, mas, infelizmente, perdemos os apontamentos.

Consultando o jornal “A Constituição”, de 13 de julho, lemos este necrológio:

“Belém, 12/7/1878.

Acabamos de receber a infaustíssima notícia do passamento do Rvmo. Padre Raiol. Severo observador das disciplinas da Igreja, sua vida foi toda dedicada ao seu engrandecimento, suportando com heroica coragem os contratempos e oferecendo peito aos ataques da impiedade mascarada com suntuoso título da filosofia moderna. Foram edificantes os exemplos que deu de bom pastor às almas confiadas à sua guarda... Como homem político, militava sob a bandeira do generoso Partido Conservador, ao qual servia com desinteresse e sobeja lealdade e como sincero apóstolo do progresso da Pátria e da entendida liberdade de seus concidadãos.”

Em sessão extraordinária do Conselho de Cultura do Pará, realizada em 28 de fevereiro do corrente ano (1978), tivemos a oportunidade, a convite de sua digna presidente Dona Maria Anunciada Ramos Chaves, fazer entre várias comunicações, uma relativa às notícias do falecimento do Padre Raiol, tendo constado de sua ata a transcrição da nota de “A Constituição”, antes citada.

Faleceu o Padre Raiol aos sessenta e um anos de idade, após dedicar-se de corpo e alma ao pastoreio de duas modestas freguesias.

Nesta comunicação, em homenagem ao centenário de sua morte, procuramos focar nossa modesta luz sobre o modesto pároco paraense, recordado hoje também pela placa simples de uma rua mosqueirense.

FONTE: MEIRA FILHO, Augusto. “Mosqueiro Ilhas e Vilas”- ED. GRAFISA, 1978- pp. 549, 550, 551, 552, 553, 554, 555, 556, 557 e 558.

quarta-feira, 21 de março de 2012

JANELAS DO TEMPO: PEDREIRA ESPORTE CLUBE

Autor: Claudionor Wanzeller

Consta em registro cartográfico de 1680 a referência mais antiga à Ilha: a Ponta da Musqueira, localizada a sudoeste, aos pés da baía de Santo Antônio. Tal denominação teria sido atribuída à presença do pirata espanhol Ruy de Moschera naquela região, em 1520. O certo é que, após a ocupação dos portugueses, com a construção dos alicerces da Cidade Velha de Belém, no século XVIII, esse lugar ficou conhecido como Ponta da Pedreira, exatamente por ser uma das pedreiras do Reino, de onde muitas pedras foram retiradas para as referidas obras. Em 1924, com a instalação da Uzina Santo Antônio da Pedreira pela firma Bitar & Irmãos, para o beneficiamento da borracha e a extração de óleos, essa ponta da Ilha recebeu o nome de Ponta do Bitar.

Os primeiros funcionários da Fábrica Bitar, após suas atividades diárias, costumavam jogar futebol na praia do Areião, iniciando, assim, o beach soccer mosqueirense.

Um ano depois, no dia 7 de Setembro de 1925, fundaram um clube social com o nome de Pedreira Esporte Clube, cujo primeiro Presidente foi o Sr. Santiago Moura Palha, estando a sede localizada na Rua da Pedreira.

Em 1928, houve uma cisão na Diretoria do Pedreira e os sócios dissidentes fundaram o Botafogo F.C.. Outra associação, já na década de 1940, teria sua origem na Fábrica Bitar: trata-se do FABRIL, em cuja sede na 2ª. Rua, esquina com a Siqueira Mendes, aconteceram bailes carnavalescos animadíssimos, promovidos pelos padres da Igreja Matriz.

Ao Sr. Moura Palha sucederam os seguintes Presidentes: Comandante Ernesto Dias, Francisco Simões, Arlindo Machado, Possidônio Cruz, Carlos Miranda, José da Silva Figueiredo, Raimundo Bastos (Mundiquinho), Álvaro Adamor Mello, Oscar Bastos, Aurélio Reis, Armínio (Ari) Gonçalves, Davi Teixeira, Wolckemer Tabosa dos Reis, Carlos Roberto Simões Mathias, Orlandino Sodré Bastos, Walter Amaral, Fernando Robalo, Raimundo Nonato de Araújo, Sinomar Dias Naves, Raimundo Brito e Carlos Roberto Simões Mathias (que dirigiu o clube até 2010).

Na gestão do Sr. Francisco Simões, a sede da associação foi transferida para a residência do citado presidente, na 2ª. Rua da Vila. Depois, com a prática do futebol estabelecida no Largo de São Sebastião (terreno de propriedade da Igreja), na confluência da 4ª. Rua com a Av. Getúlio Vargas, o clube alvi-azul ficou sediado em frente ao campo, na 4ª. Rua, atual 15 de Novembro.

A Paróquia de Nossa Senhora do Ó fez a doação perpétua desse terreno ao Pedreira E.C., fato reconhecido pela Prefeitura Municipal de Belém em 1946, na gestão do Sr. José da Silva Figueiredo, quando o campo de jogo passou a chamar-se Praça de Esportes Magalhães Barata. Tempos depois, o nome foi mudado para Estádio São Sebastião, justo reconhecimento de sua origem.

O clube ainda funcionaria durante alguns anos em casa alugada, na Trav. Comandante Ernesto Dias, até que, na gestão do Sr. Oscar Bastos, a sede própria seria adquirida, na Trav. Pratiquara, 331 e, com o passar do tempo, reconstruída, na administração do Sr. Wolckemer Tabosa, que também edificou a primeira arquibancada do estádio.

Nos velhos tempos, o Pedreira E.C. sempre teve uma vida social bastante intensa, com a realização de bailes memoráveis em datas comemorativas, especialmente na quadra carnavalesca. Esses bailes eram frequentados pela elite da Ilha e, com certeza, deixaram gratas recordações. Na época do confete e da serpentina, concursos de rainhas do carnaval, a formação de blocos de salão e a participação da criançada em bailes infantis eram sucesso garantido. Na década de 1940, um bloco de salão que ganhou as ruas foi o “Alvi-Azul”, empolgando os torcedores pedreirenses com a sua marchinha, que se tornou quase um hino:

“No céu azul,                                             O Alvi-Azul do Mosqueiro

Uma estrela brilhou.                                   Nesta Vila é oprimeiro:

Todo mundo está cantando                        Não é por ser do Pedreira

E os clarins anunciando:                            Nem por ser do Papão,

O Alvi-Azul chegou!                                   Mas é sempre Campeão!”

O Botafogo F.C., adversário sempre ferrenho desde as origens, criou o bloco “Enfeza”, para rivalizar nas ruas, como o fazia nos campos de futebol e nas festas carnavalescas. Em 1950, a turma pedreirense tinha os “Marujos do Amor” e os botafoguenses, os “Foliões da Vila”. Assim era a rivalidade entre os clubes que tiveram uma origem comum.

E como não sentir saudades daquela bandinha de música, antes comandada pelo Seu Paizinho e, depois, pelo Coré, acompanhado de Sandoval, Preguiça e Maurício, animando os jovens e a velha guarda, com marchinhas e frevos da época. E o que dizer do “Bloco da Saudade” que, às seis da manhã da quarta-feira de Cinzas, arrastava os foliões da festa para a tradicional despedida do Carnaval, no coreto da Praça da Matriz?

Mas as batalhas de confete e os bailes de Carnaval tiveram a sua época de ouro nas décadas de 1970 e 1980, com as administrações de Wolckemer Tabosa dos Reis, Carlos Roberto Simões Mathias e Orlandino Sodré Bastos. Tabosa atraiu os foliões belenenses; Carlos Mathias popularizou os bailes além de dar-lhes nomes (Baile do Azul e Branco, Baile do Vermelho e Preto, Baile do Havaí, Baile Até o Sol Raiar), atingindo o auge; e Orlandino Sodré continuou o sucesso das festas, além de priorizar a eleição da Srtª. Joana Lucinal Dias, candidata do clube, como Rainha das Rainhas do Carnaval Mosqueirense de 1982. O Pedreira faria outra Rainha das Rainhas em 1987: Srtª. Maria Lúcia Favacho Cezar.

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Equipe prepara sede para o Carnaval, na década de 70 (FOTO: Arquivo)

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Decoração criada por Dílson Nery de Araújo (sentado) FOTO: Arquivo

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Claudionor Wanzeller (Secretário) e Raimundo Paixão (Tesoureiro)

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FOTO: Arquivo

Embora, desde o início, o futebol amador tenha sido o carro-chefe das atividades do clube, o Pedreira formou, na década de 1960, a sua equipe de voleibol, para disputar partidas memoráveis com o Bom Jardim (sem dúvida, o melhor time da Ilha na época), Parazinho e Grêmio Recreativo, entre outros.

Filiado à Federação Paraense de Desportos (FPD), desde 1945, o Pedreira conquistou, naquele ano, o I Campeonato Oficial de Futebol do Mosqueiro, vencendo, na partida final, a equipe do Independência E. C. pelo placar de 1x0.

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Time de futebol do Pedreira, na década de 70 (FONTE: Jornal Nativo de Mosqueiro)

Filiou-se, depois, à Federação Paraense de Futebol e, em sua trajetória, conquistou diversos títulos no Campeonato Distrital de Futebol do Mosqueiro, o que lhe valeu o cognome de Gigante da Ilha.

Em 1994, participou do Campeonato Paraense de Futebol da Segunda Divisão, sagrando-se Campeão Invicto e conquistando o acesso ao Futebol Profissional da Primeira Divisão. Disputando durante alguns anos, a partir de 1995, na elite do Futebol Paraense, sua melhor participação resultou na 5ª. Colocação, embora tenha conseguido vitórias expressivas contra Paysandu, Remo e Tuna. Atualmente, integra o grupo da 2ª. Divisão do Futebol Profissional.

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Sinomar Naves, Alonso Guimarães e Coronel Nunes (FONTE: Nativo de Mosqueiro)

Nos seus 86 anos de existência, o Pedreira E.C. viu passarem, em suas equipes, grandes atletas, entre os quais muitos se destacaram no cenário maior do Futebol Paraense: Sidoca, China, Fernando Pau Preto, Taioba, Airton, Edmar Ferreira, Almeida Cambalhota, Zé Augusto (o Zé da Galera do Paysandu), Nuno, Luís Carlos Trindade, Paquinha, Marcelo Moraes, Fábio, entre outros.

Nos anos 70 e 80, tivemos a oportunidade de secretariar quase todos os presidentes do clube e testemunhar um excelente trabalho em prol da coletividade, que não deve ser esquecido pelos mosqueirenses. Era fácil a percepção do gostar do clube em inúmeras personagens, entre as quais citamos Hermano Pinheiro, Carlos Alberto Mathias, João Soares, Paulo Cruz, também testemunhas do passado glorioso da instituição.

Embora de Utilidade Pública Municipal e Estadual, a Associação Pedreira Esporte Clube vive hoje um ostracismo social incompreensível, não condizente com sua trajetória fulgurante. Talvez careça do apoio de órgãos públicos, mas, com certeza, necessita da vontade e da força de um trabalho jovem, capaz de despertar o Gigante Adormecido.

“NA SAGA DA BORRACHA, MOSQUEIRO É PIONEIRO.”

FONTES: Arquivo do clube, pesquisa de campo, Jornal Nativo de Mosqueiro.

http://www.youtube.com/watch?v=mc1Kyc0SzAI&feature=player_embedded

terça-feira, 20 de março de 2012

A ILHA CONTA SEUS CAUSOS: PEQUENOS FATOS QUE VÊM ACONTECENDO NA COMUNIDADE DO CARUARU

 

(Texto construído a partir de narrativas dos moradores da Comunidade de Caruaru e transcrito pela Profª. Leila do Socorro A. Cunha)

No caminho que a gente vai até a escola, existe uma ladeira, onde tem um tronco de bacuri. Toda vez que as pessoas passam à noite lá, quando elas passam sozinhas, aparece um caixão enorme todo cheio de velas acesas, mas ninguém chega perto porque sentem medo de apanhar sem saber de quem.

Ao lado da escola Maria Clemildes, existem uns igarapés onde aparece um homem preto que corre atrás de quem passar à noite sozinho. Lá, esse homem vira um pássaro grande e senta na trave do campo e fica se balançando a noite inteira.

No caminho que vai até as roças, existem umas plantações que nós chamamos de tapera. Lá tem lugares de sepulturas que os antigos diziam que eram cemitérios, e à noite ficam acesas aquelas cruzes com umas pedras de diamante.

 

(Lima Gama, Rosangela C. e Santos Andrade, Simei. “Mosqueiro Conta em Prosa e Verso o Imaginário Amazônico”. PMB, 2004, p. 115)