terça-feira, 11 de setembro de 2012

JANELAS DO TEMPO: FIGURAS INCONFUNDÍVEIS

Autor: Augusto Meira Filho

Sempre dissemos que há uma fisionomia mosqueirense predominante na Ilha”. Há gente com cara de mosqueiro, cuja presença recorda, imediatamente, as eternas lembranças do balneário famoso do paraense. Comecemos pelo serviço judiciário em mãos daquela figura especial de Theóphilo de Araújo Lameira, já falecido, e a de seu herdeiro, do nome e do lugar, Amilton Quaresma Lameira. Do foguista (ao tempo da Usina de Eletricidade) Raimundo Valentim e a do seu Chefe: Joaquim Agrassar. O Cecy (com seu posto) que poucos conhecem como Raimundo de Assunção da Cruz.

O conhecido Mário “Maracujá” que ninguém sabe ser Mário Pontes de Carvalho. Pois o “Sete” – carregador estimado e amigo – chama-se Raimundo Costa.

O Lemuel Lopes da Paz com sua mercearia-restaurante e o Rufino Magalhães, vendedor de caldo de cana. E José Maria Ribeiro que é o atual proprietário do antigo Bar “Elite” do Antônio – “aguadeiro”. Impossível faltar uma profunda referência política: a das irmãs Dora com sua corajosa Francisca Dora Puga.

Também assinalar a patriótica presença, na Vila, de Marieta Contente Melo, operosa dona da Farmácia Moderna, seguida de Rosa Custódio sua similar de Nossa Senhora do Ó.

Recordamos o amigo prestimoso Manoel Joaquim Luna e o Orlando, que começou revisor de ônibus e acabou como comerciante em seu Bazar, ao lado da Igreja, sempre delgado, solícito, amável.

E lá para as nossas plagas no Diamante, valerá ressaltar o Cabo Victor, emérito pescador, o Pantoja, o Peroba, o Zito (surdo), o Matias, o Aurino, o Levindo. Também a simpática D. Georgina (baiana), com seu velho André, o maior caseiro da Ilha, com a Joana e a Maria, suas filhas. Também seu filho Raimundo (calango) que um dia salvou de afogamento no Farol o nosso colega Alfredo Boneff. Destaquemos o compadre Capitulino Rabelo e sua mulher Raimunda. A filha Elza, do primeiro matrimônio, casada com o Tertuliano Souza, e da segunda, seus nove rebentos que cresceram à sombra dos nossos bambus e hoje progridem na cidade, alegrando e orgulhecendo seus genitores.

E o João Louchard com sua brava Maria, o Luiz Anselmo com sua Ovídia, tão conhecida lavadeira chamada de Vivi? Os Cohem, Isaac (empregado do Zacharias e honrado serviçal) e o irmão, macumbeiro, vendedor de tapioquinhas, o Daniel, vizinho e contador de prosa. O velho marimbeiro Amâncio, companheiro da Brígida Lamego. Esta Brígida ainda reside no mesmo lugar, com seis filhos três claros e três escuros. Mulher admirável! Pobre, humilde, vivendo em uma casinha de taipa, coberta de telha, ao lado do atual Netuno Iate Clube. Não tem nada além desses filhos. Trabalha, luta, cria, serve a uns e outros, lava roupa e vai levando a vida como Deus manda. Um dia – nas férias grandes de julho de 1977 – achou na estrada, em frente a seu terreno, uma carteira cheia de dinheiro e de papéis. E viu em cartão preso no seu interior o nome e o endereço de seu proprietário. Procurou uma vizinha séria, a Elza filha do Capitulino, morador no Diamante, e não sossegou enquanto não convenceu a amiga de mandar uma de suas filhas, a Maria, acompanhando-a a Belém, para fazer a entrega da carteira achada.

Indescritível, depois, vendo-a relatar o espanto do moço da cidade em receber seu objeto sem nada lhe faltar. Gratificou generosamente Brígida, agradecendo seu gesto, afirmando, mesmo, que não mais tinha esperança de ressarcir sua carteira, sobretudo, valiosa, pelos documentos que continha. Ao despedir-se fez questão de afirmar, com eloquência, que atitudes como aquela há muito haviam desaparecido da face da terra. O encontro foi emocionante, conforme nos contou Maria, filha de Elza, acompanhante de Brígida a Belém só com o fim de entregar a seu verdadeiro dono, o achado acidental, no Mosqueiro. Fazemos questão de assinalar o fato, pela sua grandeza e significação.

Relembramos o Adelino, erguendo sua casa com sacrifício, em frente à nossa e que possuía uma grande qualidade: dava, ou melhor, aplicava injeções de qualquer tipo e era enfermeiro. Com a meninada em casa, longe de Belém, os melhores serviços nos prestaria, sempre com boa vontade e simpatia. Era irmão de D. Adelaide, esposa do mestre Zacharias.

E por falar, outra vez, no Zacharias, devemos recordar aquela figura magra, esperta, segura e trabalhadora, de dona Maria, a sogra do dono da casa, que madrugava, acordando hóspedes, preparando café e dando início cedo à sua luta no Hotel. Trabalhou muito toda a vida e morreu de velhice, sem moléstia!

Havia, no hotel, também, um empregado cabeçudo (doente) e uma cozinheira tão feia que alguém dissera (sic) serviria para “pousar” no atelier do artista brasileiro Cândido Portinari...

O Capitulino Rabelo não era do Mosqueiro. Nascido na Vigia, contudo, se instalara na Estrada do Diamante (quando ainda era do Pau-Grande) onde o conhecemos. Teve uma filha, com a 1ª. Esposa Adélia Farias. Com a 2ª. Consorte, vieram nove rebentos: Wivaldo, Osvaldo, Aurivaldo, Lourival, José, Laurinéia, Inez e Lucineide, esta última nossa afilhada.

Excelente criatura humana, serviçal de absoluta confiança, sério e responsável, ainda hoje nos serve com dedicação e verdadeira amizade.

Também vemos na pessoa da Antônia (filha de Luiz Anselmo), casada com outro Zacarias, uma criatura dinâmica, braço direito do esposo, ambos explorando na praia do Farol um pequeno pavilhão, que serve de tudo ao veranista. Não sabemos se ele continua, ainda, como funcionário municipal. Residem às proximidades do campo de aviação e do novo “Camping” recentemente instalado pela Prefeitura, no correr da Av. 16 de Novembro, à ilharga daquele campo. É uma das novidades da Ilha, instituído agora, na administração do Prefeito Ajax Carvalho de Oliveira.

Na prainha do Farol, próximo já à Praia Grande, pontificava o Caranguejo. Tinha uma bodega, negociava ao pé da estrada e era muito procurado porque vendia peixe fresco, toda vez que suas barcas apanhavam um bom filhote nas marés altas. Com uma buzina feita de chifre de boi, anunciava aos quatro cantos do bairro a chegada do produto. Também possuía carroças, para o transporte de material de construção e outras cargas.

Residindo bem perto do nosso Diamante, muitas vezes, apelávamos à sua camaradagem, para um passeio pitoresco à Vila, pela “carroça-da-linha”!

Aquela região da Ilha é muito habitada e construída. Nos velhos tempos, a Praia Grande foi centro social da Vila, à mesma época em que as festas na Vila Faneca ficavam marcadas na história do lugar. Entre esta Faneca e a casa do estimado amigo Chedem Bitar se situava o terreno imenso, verdadeiro bosque, residência dos Maristas e que ali se reuniam nas férias ou fins-de-semana. Amigos, todos, muitas vezes os visitamos para um alegre encontro, à sombra do belo arvoredo, saboreando vinho de missa e alguns quitutes regionais. Recordamos as figuras dos franceses Edmundo Dansot e André Delpuech, os mesmos que, um dia, nos fariam a surpresa de levar ao Diamante o Bispo D. Ives Bossière que, de passagem por Belém, visitaria a aconchegante Vivenda dos filhos de Champagnat, na Praia do Bispo. Entre uns e outros a casa do Noronha, o construtor oficial do Mosqueiro. Na passagem, o tradicional retiro Escalhão de um velho português, amigo do Mosqueiro e dos melhores.

Na Quarta Rua, residia o amigo Luiz Lima, pioneiro de nossa maravilhosa avançada a pé de Belém à Ilha, em 1959, que já relatamos. Dona Lúcia, o afilhado Antonio Maria, sempre dispostos à caminhada pela estrada até o Farol, onde aproveitavam as lindas manhãs do Mosqueiro, num delicioso banho no Farol e, depois, invariavelmente, passavam no Diamante para um drinque e um dedo de prosa. Velhos tempos, bons tempos, belos tempos, quando o Mosqueiro só era mesmo uma ilha. Na casa avarandada da 4ª. Rua, o doutor José Luiz Sousa Ferreira, quase sempre, reclamava o silêncio, a paz eterna, o “nada-que-fazer” e se dispunha com a família numerosa a nos responder:

-- Estou cansado disto aqui. Só se faz dormir, tomar banho de praia, comer e dormir de novo. Não aguento mais o chamado dos meninos, para ir lá fora e ver mais uma vez o “cruzeiro do sul”, ponteando no céu como uma dádiva. Ver toda noite, ou melhor, todas as noites o cruzeiro cintilante, anunciando os caminhos do sul. Nada mais. Uma sueca ligeira e toma rede até amanhecer. A viagem para a praia, o retorno no sol quente abrasando a sola dos pés, o desgaste físico do percurso de perto de uma légua, e eis umas férias mortificantes para quem não sabia ter espírito esportivo.

Ma para o grande dermatologista, o Mosqueiro era a liberdade, a fuga da luta citadina, do inferno dos hospitais. Ele sempre soube ser um notável mosqueirense, mesmo quando se mudou para o Chapéu Virado, em seu tranquilo apartamento no Lilian-Lúcia.

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Viagem pitoresca em carro de boi (FONTE: Augusto Meira Filho)

FONTE: MEIRA FILHO, Augusto. “Mosqueiro Ilhas e Vilas”- ED. GRAFISA, 1978- pp. 385, 386, 387 e 388.

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