sexta-feira, 1 de abril de 2011

NA ROTA DA HISTÓRIA: ESTRADA BELÉM-MOSQUEIRO: O PRIMEIRO PASSO DE UM SONHO

Autor: Augusto Meira Filho

“Jurandir Alves da Cunha, chefe da firma, contratou, em São Paulo, um jovem topógrafo, José Delbim que, em Belém, executaria esses serviços topográficos no Utinga e que permitissem, a posteriori, um cálculo exato da penetração dos lagos em terras de terceiros.

Sempre em nossa companhia no D.E.A. e nas matas do Água Preta, Delbim ouviria nossas aspirações em torno dos planos para a abertura de uma estrada entre Belém e o Mosqueiro. Tão interessado mostrou-se que, cedo, visitou a ilha e procurou conhecer melhor o ambiente que tanto defendíamos. Seu entusiasmo coincidiu ao nosso e logo, de motu proprio, ele, na qualidade de mateiro e topógrafo, propunha-se, gratuitamente, em seus dias de folga, a nos apresentar um reconhecimento topográfico de toda a região compreendida entre Benevides e o Mosqueiro. Isso era tudo quanto desejávamos, ardorosamente.

No correr do ano de 1946, adiantados os levantamentos do Utinga, nosso estimado colaborador chamou a si aquela responsabilidade de nos apresentar, sem despesas, um caminhamento inicial desde a Vila de Benevides à Ilha do Mosqueiro. E assim foi feito, sem ônus para ninguém.

Em sábado apropriado, sem qualquer compromisso com o poder público, apenas desejoso de nos servir e já interessado na Ilha do Mosqueiro que visitara por via fluvial, José Delbim organiza uma turma-de-mato, gente habilitada em serviços de campo e parte, manhã cedo, de Benevides, seguindo a direção que havíamos indicado, para que seguisse a própria orientação solar, de leste para oeste, praticamente em linha reta que iria, fatalmente, dar em frente ao Mosqueiro, ou melhor, ao furo das Marinhas, que separava a Ilha do continente.

Nessa viagem pioneira de reconhecimento da região, Delbim levou alguns ajudantes moradores de Benevides, gente de confiança ligada à família Salomão que, nessa época, desfrutava de largo prestígio político no município. Ainda lá existem muitos dos que participaram dessa empreitada, em busca da solução rodoviária entre a capital e a Ilha do Mosqueiro.

Ao retorno, o topógrafo nos cientificava do ocorrido. Na primeira tentativa, chegou a turma até o igarapé do Paricatuba, onde ele por si só se alarga, dando a impressão de um lago. Essa circunstância nos havia sido anunciada pelo mestre Sidrim. Para a próxima investida, realizada uma semana após, sugerimos que reconhecesse o terreno um pouco mais para baixo e, assim, comprovaria que o Paricatuba, em certo trecho, não teria mais de vinte ou trinta metros.

Isso mesmo foi observado, in loco, pelo nosso colaborador. Cada semana, uma novidade a mais ficava patente na caderneta de campo e ele prosseguia em seu trabalho pioneiro de penetração dessa parte do continente que deveria frontear-se com a ínsula. Na penúltima entrada, Delbim encontraria casebres fixados à beira dos pequenos rios, gente simples, vivendo da pesca e da caça e muita criação. Recordamos uma sua observação: na dormida do sábado para o domingo, dificilmente encontrava mosquitos ou umidade capaz de incomodá-los. Cedo despertavam, iniciando a caminhada seguindo os mesmos rumos do oriente para o ocidente, ou melhor, de nordeste para o sudoeste, em demanda da Ilha. As notícias seguiam o mesmo ritmo, estando toda a turma em ótimas condições físicas, para o retorno ao trabalho, na semana seguinte.

Nosso entusiasmo crescia em cada chegada de Delbim trazendo as melhores referências do lugar, principalmente para efeito de uma construção rodoviária que sonhávamos anunciar aos quatro ventos da cidade e do Estado.

Na última avançada, sempre partindo do mesmo local, sentimos que dessa feita o grupo chegaria ao Canal das Marinhas ou “Furo” anunciado na planta de Palma Muniz.

Convidamos o eng.º Jurandir Cunha – chefe dos serviços da Byington – para um possível encontro com os rapazes do campo, em qualquer lugar provável aonde deveriam chegar, ao fim da picada que pretendiam efetuar complementando o serviço já realizado. Era o que supúnhamos como ser, em vista da planta citada e que serviria de base a todas as nossas conclusões.

Jurandir Cunha aceitou o convite. Conseguimos a gentileza de uma bela lancha de propriedade do SESP, segura e confortável, e, com pequeno lanche a bordo, tomamos a embarcação no trapiche do Pinheiro.

Recomendamos ao comandante seguir à ilharga do Pinheiro, entrando pelo furo do Maguary. Passaríamos o matadouro e algumas instalações madeireiras então plantadas à margem do rio, sempre à nossa direita. Deveríamos avançar nesse rumo, sem perder de vista a ilha à esquerda de Caratateua. A lancha, veloz, cumpria esse programa, até quando sentimos que à nossa destra continuavam os barrancos continentais enquanto do outro lado desaparecia a ilha de Caratateua surgindo, em seguida, a costa do Mosqueiro. Assim, havíamos vencido toda a ilharga da primeira ilha fronteira ao Pinheiro e, agora, a segunda (Mosqueiro) começava a se aproximar da embarcação.

Ordenamos que continuasse na mesma marcha a lancha, em boa hora cedida pelo SESP, sempre beirando o continente. Tanto mais avançávamos no rumo leste, a ilha do Mosqueiro mais parecia aproximar-se do continente.

Em pouco tempo, a partir desse ponto de nossa inspeção, achamos interessante parar um pouco, em uma mercearia com grande trapiche que, além de nos proporcionar alguma notícia da turma-de-campo que deveria desembocar por aquelas bandas, poderíamos, também reforçar nosso lanche que estava a acabar.

O comandante obedeceu nossas instruções. Atracou na base do trapiche e onde estava uma enorme escada de acesso ao topo dessa improvisada ponte de desembarque. Recordamos ter comentado com Jurandir:

-- Como é bom estar longe do rebuliço da cidade, em lugar que somos inteiramente desconhecidos. Não há dinheiro que pague esta libertação e esta paz, nesta casa comercial que pela primeira vez visitamos. Um conforto, isso!

Nem bem falávamos elogiando a tranquilidade reinante, vem em nossa direção um cidadão alto, magro, novo, com ares de lusitano e sem cerimônia fala:

-- Com que então o senhor doutor cá por estas bandas, deve ser alguma coisa boa a nos acontecer. Então, o que mandam? Boa viagem? Que procuram?

Mal tivemos a oportunidade de apresentar o colega e confirmar que desejávamos informações sobre uma turma de topógrafos que ali deveria chegar a qualquer momento. E indagamos curiosos:

-- E o Sr. sabe quem somos? Nunca aqui estivemos, antes. É a primeira vez que conhecemos este lugar. O que sabe? Quem é o senhor? Explique-se...

O cidadão nos fez entrar, ofereceu-nos refrigerantes e informou:

-- Ora, Sr. doutor, o seu irmão Dr. Octávio é meu advogado. O Sr. não é um dos Meira? Que faz por cá? Posso ser-lhe útil? Esta é a minha propriedade. Estou aqui há mais de vinte anos. Fundei uma olaria e denominei tudo de “Olaria Tauarié”, tomando esse nome de um igarapé que passa ao lado. Tenho esta mercearia, negocio com telhas e tijolos, às vezes madeiras e luto nesta distância da capital, para sustentar a família. Todo meu comércio se faz pelo rio. Tenho barcos e gente que conhece todos esses furos, até Belém. Nossa esperança é possuir, um dia, uma estrada que nos facilite a vida daqui até a estrada grande de Bragança. Aqui perto está a fazenda do Sr. Salame. Para dentro, a Serraria Santa Rosa e o lugar chamado “Santa Bárbara”. Todo mundo transporta seus produtos pelo rio, utilizando embarcações que vão para toda parte.

O português falava, queixava-se do isolamento de Belém e comentava o desejo coletivo de toda aquela região em contar com uma rodovia interna que lhes permitisse facilidade de locomoção e de negócio. Depois, sentou-se ao nosso lado e abriu-se:

-- Chamo-me Aníbal Brito. Sou português do distrito de Coimbra. Vim para o Brasil como todos os meus patrícios. Localizei-me aqui e habituei-me. Não gostaria de deixar este pedaço de terra que já requeri e é minha propriedade. Meus empregados residem quase todos ao pé da olaria. Isto aqui é o meu mundo. E para ser completo e melhor, nos bastaria um caminho dentro dessa mata, até a vila de Benevides.

Quando o homem falou em Benevides, entramos na conversa: -- O Sr. Aníbal não viu ninguém chegar por aqui, vindo de dentro da mata? Uma turma de mateiros e um topógrafo? Ficaram de soltar foguetes ou tiros de espingarda, anunciando sua chegada. Ouviu alguma coisa hoje? Ninguém viu nada, de sua gente?

O lusitano, coçando o cabelo ralo, pensou, e nos confirmou nada saber.

Nem a propósito, mal sorvíamos o refrigerante oferecido, após esse primeiro contacto, com certo estrépito apareceram moradores da olaria, dizendo que vinham “dando tiros de dentro da mata”. Estavam todos assustados. Aníbal levantou-se e convidou-nos a ir até o fim da casa de onde se olhava a capoeira e o mato espesso, intercalados, de um terreno frouxo, alagadiço e repleto de verdejante capinzal. Os caboclos, ordenados pelo patrão, foram avançar pela região molhada de onde partiram os tiros, anunciados.

Havia uma expectativa em todos os semblantes.

Nós, emocionados, quase não poderíamos acreditar na coincidência daquele desembarque na Olaria do Tauarié do Sr. Aníbal Brito. Sabíamos, de antemão, de uma provável chegada de Delbim naquelas paragens ermas do Furo das Marinhas, mas, evidentemente, no local exato da penetração que partira de Benevides, isso nos parecia um milagre! Sim! Um milagre!

E para surpresa de todos, de trabalhadores, de familiares do proprietário, do próprio Sr. Aníbal e de nós mesmos, vimos destacar-se, no fim do terreno, vitoriosos, nossos companheiros, tendo Delbim à frente. Sim, um bravo jovem paulista, como seus ancestrais bandeirantes, culminava sua obra, abraçando-nos comovidamente. Sua missão estava cumprida, como dissemos, só para nos servir. Essa obra sempre teria esses abnegados, como iremos ver no correr dessa contribuição.

Não precisamos assinalar a alegria que nos invadiu. Jurandir satisfeito com a coragem e a dedicação do conterrâneo e nós com a alma leve de um santo que visse confirmado seu poder e sua profecia. E nos vinha à memória a figura do mestre Sidrim e o que não iria exultar com esse sucesso. O topógrafo e os demais, chefes e mateiros se confraternizavam. Aníbal mal dava conta de sua satisfação, pois, a seu ver, aquele seria o primeiro passo para a esperada construção de uma rodovia, unindo seu Tauarié à cidade de Belém.

Alegres, satisfeitos, felizes, reunimo-nos na casa de Aníbal que se desdobraria em gentilezas para seus convidados. Dirigindo-nos a palavra, dizia:

-- Bem o disse ao senhor doutor. Sua presença aqui hoje nos daria maior esperança de que nossos sonhos comuns se realizem. Afinal, esses rapazes vieram de Benevides, por dentro da mata, e aqui estão sãos e salvos. Onde passaram, brevemente, uma estrada poderá estar pronta, para glória de todos que colaboraram ou venham a cooperar nesse empreendimento. Ora viva, Sr. doutor! Viva!

Realmente o lusitano estava eufórico e não se fartou de nos obsequiar. Ofereceu-se, a partir daquele instante, a ser mais um soldado a favor da grande obra que tentávamos lançar e realizar com a ajuda do poder público. Em certo momento, indicando a ilha fronteira, nos revelou:

-- Lá está o Mosqueiro. Conheço-a de ponta a ponta, por dentro e por fora. Qualquer coisa que necessitem, aqui estou no meu posto avançado. Tenho casas para abrigar pessoal, braços para ajudar na obra e alimento para garantir a maiores dificuldades. O senhor doutor poderá dispor inteiramente e aqui aguardo suas ordens. Basta-me um bilhete e pronto. Tudo será servido. Nunca, ninguém, antes do senhor, veio ao Tauarié para nos dar tanta garantia de que essa estrada um dia será uma realidade. E nós confiamos na sua palavra e no seu nome.

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CONSTRUÇÃO DA RODOVIA BELÉM-MOSQUEIRO EM 1964 (FONTE: MEIRA FILHO)

Jurandir assistiu a tudo aquilo, boquiaberto e extasiado. Que milagre!

Na mesma lancha do SESP, retornaríamos todos a Belém, via Pinheiro. As informações, a caderneta de campo, os esclarecimentos complementares teríamos em Belém, depois dessa maravilhosa empreitada. Logo, no barco, ainda, Delbim nos confiaria suas conclusões de topógrafo e conhecedor da matéria.

-- Não há dúvida de que o terreno é o melhor possível para a construção de uma estrada. Os pequenos igarapés que encontramos não serão o obstáculo a considerar em uma obra dessa natureza. O pedaço pior de toda a caminhada foi, exatamente, esse trecho próximo à margem do Furo das Marinhas, tudo pantanoso, mole e escorregadio. São cerca de oitocentos metros de extensão, da parte sólida ao furo. Pela sua natureza, acredito que, nas marés grandes, as águas penetram toda essa região e o mesmo deve acontecer do lado de lá, na Ilha do Mosqueiro.

Mais tarde, chegaríamos a essa verdade, desde logo revelada pelo técnico Delbim e essas laterais seriam, durante anos, a maior dor-de-cabeça de executantes, em ambos os lados...”

(MEIRA FILHO, Augusto. “Mosqueiro Ilhas e Vilas”, ED. GRAFISA, 1978, PP. 129, 130, 131, 132, 133, 134, 135 e 136).

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