sábado, 18 de dezembro de 2010

NA ROTA DA HISTÓRIA: O PHAROLETE DO CHAPEO-VIRADO

O pequeno farol localizado na antiga Ponta do Chapéu Virado (hoje Ponta do Farol) é um marco importante na história da ilha, não só por sinalizar aquela faixa de terra que avança sobre a baía do Marajó, mas, sobretudo, por ter originado o nome do hotel ali construído pelo saudoso Zacarias Mártyres (Hotel Farol), assim como as denominações da pequena enseada que lhe fica abaixo (Prainha do Farol), da grande extensão da antiga praia do Chapéu Virado, que lhe fica acima (Praia do Farol) e do bairro construído a partir desses pontos (bairro do Farol). Como registro da instalação do primeiro farol, em fevereiro de 1872, época de chuvas torrenciais na ilha, recorremos ao documento transcrito no Diário do Gram-Pará, em 27.02.1872, o qual foi enviado ao Presidente da Província, Abel Graça, pelo Comandante do vapor de guerra Marcílio Dias, cuja guarnição executou o referido trabalho.

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Praia do Farol (FONTE: Google Earth).

“Pharolete do Chapeo-Virado.

N. Bordo do vapor de guerra Marcílio Dias, no Pará, 22 de fevereiro de 1872.

Ilmo. exm. Sr.

Com verdadeira satisfação cumpro hoje o dever de comunicar a V. Ex. que ficou collocado na ponta do Chapeo Virado o pharolete do cujo assentamento me havia incumbido, de motu próprio, no intuito de dar a V. Ex. uma prova dos bons desejos que me animam em auxilia-lo, carregando também a minha pedra para o grandioso edifício da prosperidade d’esta província, cujo mais incansável obreiro tem sido incontestavelmente V. Ex..

O pharolete em questão está na parte mais elevada da dita ponta, num lugar onde descobri uma pequena peça de ferro e vestígios dum antigo poste telegraphico, mas foi-me preciso mandar previamente derrubar a mata cerrada que existia no focinho da ponta, lugar conhecido pelo nome de ilhota por ficar separado do continente nas ocasiões da préa-mar, motivo este que me levou a não preferi-lo, apesar da sua posição avançada.

Depois de descortinar o terreno, roçando e derrubando o mato que podia interceptar a luz em certas direcções, mandei fazer uma grande cavidade no dito ponto, encontrando argila numa camada de 2m40, e depois uns 0.m25 de área e em seguida rocha, de sorte que ficou a cava com sete pés de profundidade sobre um comprimento de 20 e largura de 18 pés. Não me sendo possível aprofundar mais o fosso fiz assentar a primeira secção de madeiramento sobre o fundo da rocha, e começou-se então a armar o gradamento, encavilhando com a maior solidez as oite grossas vigas que formam a base ou secção horisontal inferior da pyramide truncada arranjada de proposito para servir de alicerce a colunna do pharolete.

Neste ponto achava-se o trabalho quando me sucedeu o desastre occasionado pela explosão inesperada d’uma arma spencer, o que me obrigou a vir num escaler a cidade em busca de socorros médicos; deixei entretanto ordens detalhadas ao Immediato para fazer encavilhar os quatro madeiros das arestas obliquas, e sobre elles assentar a secção horisontal superior da dita pyramide, em tudo semelhante a inferior, da qual so differia em ser de menores dimensões.

Feito isto e collocada verticalmente no centro das duas secções, como eixo da figura, uma grossa viga de faces regulares que fizera preparar de ante-mão, sobre Ella se enfiou a parte quadrangular da colunna de ferro, suspendida por meio d’estralheiras n’uma cabrilha que eu mandara armar por cima do buraco.

Concluida a armação da base ou gradamento de madeira dentro da referida cavidade, e collocada solidamento a colunna, encheu-se tudo com barro e pedras de todos os tamanhos, de sorte que posso affirmar a V. Exc. Que, se a viga vertical na qual encaixa a colunna não apodrecer, o que não é provável por ser de massaranduba, será uma obra eterna o pharolete do Chapéo Virado.

Occupou-se n’esse serviço quasi toda a guarnição do Marcilio Dias, incluindo os carpinteiros e calafates, mas foi tal e tão constante a chuva durante o trabalho, que realmente so de um pessoal sujeito pela disciplina se podia conseguir levar ao termo em tão má quadra e pouco tempo.

Releve-me V. exc. Que tenha entrado em todos estes detalhes, mas fi-lo unicamente para facilitar aos encarregados da collocação dos outros dois pharoletes das pontas do Taypú e do Carmo, no caso que eu na volta do Amazonas não possa demorar-me neste porto o tempo preciso.

Cumpre-me ainda accrescentar que o apparelho de luz é lenticular, com lâmpada de azeite e alcance médio de 8 milhas, mas que seria muito conveniente, não so por economica e aceio como para maior entensidade da luz, substituir a mecha dos candieiros e empregar o kerosene como combustível.

Por esta occasião devo informar a V. exc. que me parece tambem medida econômica aproveitar-se para pharoleiro um individuo que rezide a cem braças do pharol e ahi se occupa no officio de ferreiro; tive boas informações a seu respeito e mesmo mandei accender a mecha da lampada em sua presença para explicar-lhe o modo de dar corda no apparelho que faz subir o azeite por meio da compressão. Chama-se esse homem Lourenço Antonio de tal, e se V. exc. quizer manda-lo nomear posso faze-lo vir a esta capital.

Aproveito a oportunidade para reiterar a V. exc. as expressões da minha perfeita estima e distincta consideração.

Ilm. exm. sr. dr. Abel Graça.

Presidente da província.”

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Ponta do Farol e ilha dos Amores (FONTE: Google Earth).

Pelo teor do documento, nota-se que o Comandante conhecia bem a costa ocidental da ilha e deve ter fundeado o vapor da Marinha Imperial na Prainha, cuja enseada oferece maior proteção às embarcações, livrando-as do ímpeto das ondas. Também era conhecedor do movimento das marés no rio Pará, o que demonstra a aventura de uma viagem num escaler desde o Chapéu Virado até Belém. Segundo seu relato, a ilhota, que hoje conhecemos como “ilha dos amores”, há 140 anos era recoberta por densa mata, assim como toda aquela ponta. Desperta-nos a curiosidade o fato de encontrarem vestígios de um antigo poste telegráfico naquele local. Estranha-se também a presença de um ferreiro de profissão habitando um lugar tão ermo. Sem dúvida, são detalhes interessantes na história desse farolete, cuja descrição pormenorizada nos possibilita uma visão perfeita de sua imagem. Embora o Comandante do Marcilio Dias pretendesse que essa obra fosse eterna, onze anos depois seria construído ali um novo farol, o qual substituiu o primeiro e existe até hoje. O historiador Theodoro Braga assim descreve o Farol do Chapéu Virado:

Situado no extremo da restinga de pedras que se extende de ½ milha da Ilha do Mosqueiro, e que descobre com a baixa-mar, correndo a NE, do pharol, tudo na costa occidental da dita ilha, na Bahia de Marajó, município de Belém; o apparelho é dioptrico de 5ª ordem, sua luz é vermelha fixa, alcançando 12 milhas em tempo claro; o foco luminoso está 10,50 m acima do solo e 11,04 m acima do prea-mar e é collocado sobre colluna de ferro pintada de branco; a casa dos pharoleiros é a mesma do antigo pharolete; foi inaugurado a 16 de Fevereiro de 1883; substituio o antigo pharolete que funcionava no alto da ponta do Chapeu Virado, desde 25 de Março de 1872. Sua posição geographica é 1° 08’ 35’’ lat. Sul e 6° 18’ 3’’ long. O do Rio de Janeiro, e 48° 28’ 30’’ de Greenwich.”

clip_image006 O FAROL na antiga Ponta-do-Chapeo-Virado ( GALERIA BELÉM).

Um comentário:

  1. Você possui a referência bibliográfica desse documento? se sim, me envie por favor. Kerenvasconcelos@gmail.com
    Obrigada.

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